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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Tratamento agudo de uma luxação da acromioclavicular – estudo de caso clínico

A composição da articulação acromioclavicular vai sofrendo alterações ao longo do tempo: durante a segunda década de vida, a cartilagem adquire uma matriz mais fibrocartilaginosa. Por volta dos 40 o disco fibrocartilaginoso intra-articular degenera tornando-o uma estrutura muito pouco funcional.

A discussão sobre as lesões nos ligamentos desta articulação remonta aos escritos de Hipócrates, onde este propôs que este tipo de lesões não resultaria em danos significativos. Em muitos aspectos, pouco mudou nestes 2400 anos.

Em 1990, Rockwood sugeriu um esquema de classificação primária, que define a gravidade da lesão em relação à estrutura específica afectada:
  • Rockwood Tipo I. ruptura parcial do ligamento acromioclavicular.
  • Rockwood Tipo II. rutura total do ligamento acromiclavicular e rutura parcial dos ligamentos coracoclaviculares.
  • Rockwood Tipo III. rutura total do ligamento acromiclavicular e dos ligamentos coracoclaviculares. Provoca deslocação dos segmentos (uma luxação), resultando numa alteração visível do ombro. Rockwood acrescentou variações específicas do tipo III, como IV, V e VI, dependendo do grau de deslocamento da clavícula.

O objectivo deste estudo de caso é descrever o tratamento agudo de um caso clássico de lesão tipo III.

Apresentação do caso clínico

  • Homem, 61 anos, mão direita dominante, estava a jogar ténis no momento da lesão.
  • Na queda o seu ombro direito suportou todo o peso do corpo contra o chão. Apesar de ter jogado mais dois pontos, acabou por ficar incapaz de elevar o ombro para realizar um movimento de servir.
  • O sujeito tinha sofrido uma lesão acromioclavicular de grau II quatro décadas antes.
  • Após sofrer a lesão actual o paciente era capaz de palpar o topo articular da clavícula livremente posicionado, e observava-se o sinal de cabide, consistente com uma lesão de grau III.
  • Aplicou gelo durante toda a noite e tentou dormir numa cadeira com o braço apoiado. Na manhã seguinte foi a um ortopedista. De imediato foi utilizado um sling para minimizar o desconforto na posição de repouso.
  • A sua apresentação era clássica de uma lesão AC comum, com perda óbvia de contorno normal e descida significativa do complexo glenumeral fazendo aparecer a clavícula significativamente elevada. No entanto o ortopedista falou na necessidade de uma RM e na possibilidade da cirurgia.
  • Não sendo a sua primeira opção, o sujeito consultou o fisioterapeuta, que falou na necessidade de um raio-X para confirmar o diagnóstico de lesão grau III.
  • Neste ponto, o médico assistente pediu e analisou estudo radiográfico, que não demonstrou qualquer lesão óssea, concordando com o diagnóstico de lesão Rockwood tipo III.
     



Para este tipo de lesão existem dois tipos de cirurgia (descritas pelas fotos)


E o tratamento conservador.
Durante os últimos 20 anos, foram efectuados numerosos estudos que compararam os resultados destas duas abordagens, não observando nenhuma diferença entre eles. Aliás, um dos estudos analisados indicava melhores resultados no curto prazo com o tratamento conservador.

Tratamento

Embora a deslocação fosse significativa e evidente (Figuras 3 e 5), e já houvesse artrite significativa da articulação, a literatura não suporta a reparação precoce como sendo melhor do que qualquer posterior reconstrução, se a instabilidade se mantiver a longo prazo após tratamento conservador.
  • Assim, o paciente começou a utilizar um sling de suporte e de fixação do antebraço para o tronco (Figura 10) e recebeu medicamentos analgésicos.
  • A indicação foi para usar o sling tanto quanto possível, mas poderia removê-lo para tomar banho, devendo apoiar o braço o mais possível, como mostrado na Figura 4. Deveria encontrar também a melhor posição para dormir.
  • Devia aplicar gelo, quanto mais vezes melhor, sendo o ideal períodos de 20 minutos de 2 em 2 horas.
  • Apesar da ligadura de tape ser muitas vezes utilizada, uma vez que os ligamentos coracoclaviculares foram completamente rompidos e a articulação já apresentava artrite, não se optou por esta solução, nem pelo colete rígido, evitando lesão da pele e pressão adicional sobre a articulação.
  • O paciente descobriu que dormir numa cadeira reclinada dava mais conforto ao braço, e ao terceiro dia após a lesão encontrou uma posição em que conseguia escrever com o braço bem apoiado.
  • Após uma semana de sling foram iniciados movimentos cuidadosos abaixo de 90º de elevação. O paciente começou a dormir na sua cama.
  • Começou a utilizar o sling mais solto e a fazer movimentos de controlo escapular todas as horas.
  • Durante as três semanas seguintes, deu-se uma lenta progressão das atividades. Tomar banho ainda era difícil, e a extensão e rotação interna combinados davam uma sensação de choque como resposta.
  • Na 3ª semana começou a conseguir dormir de lado e atingiu a amplitude de movimento completa. No entanto, permanecia a sensibilidade no final da elevação, bem como nos movimentos combinados de rotação interna e de extensão.
  • Foi capaz de balançar o taco de golfe sem desconforto durante a quinta semana.
  • Embora permanecesse obvia a deformação, apenas persistiam pequenas crepitações ou irritação. Esporadicamente o ombro ficava mais sensível, principalmente depois de várias horas a digitar ou de trabalho mais pesado da extremidade superior.


Conclusões

Embora o tratamento para lesões Rockwood Tipo III possa ser um tanto controverso, a literatura predominante suporta a gestão não-operatória. Se o paciente não estiver satisfeito com a sua função e/ou aparência após 3-6 meses, a reconstrução cirúrgica pode ser realizada com abordagens mais recentes focadas na restauração anatómica.

Neste paciente, a imobilização precoce para o conforto, atividades funcionais iniciais limitada a menos de 90º, seguidas de padrões funcionais na terceira semana significaram um rápido retorno à amplitude completa de movimento e atividade. O raio-X pode ser suficiente na maioria das lesões para delinear o grau ou tipo de lesão e o tratamento a seguir.



Terry Malone, ACUTE MANAGEMENT CONCEPTS OF THE ACROMIOCLAVICULAR JOINT: A CASE REPORT. Int J Sports Phys Ther. 2012 October; 7(5): 558–564.


sábado, 2 de março de 2013

Teste de O'Brien para o ombro


Descrição

O objetivo do teste de compressão ativa de O'Brien é testar estruturas como o labrum glenoideu e a articulação acromioclavicular, perante suspeita de lesões como a rutura superior do labrum glenoideu ou lesões acromioclaviculares causadoras de dor no ombro.
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Técnica

Com o paciente em pé ou sentado, a extremidade superior a ser testada é colocada num posição de 90° de flexão do ombro e 10° de adução horizontal. O paciente faz então rotação interna do ombro e pronação  do antebraço. O examinador aplica força de estabilização distal indicando ao paciente para resistir a essa força.  O procedimento é então repetido com o ombro e antebraço em posição neutra. Um teste positivo ocorre com a reprodução da dor ou crepitação no ombro na primeira posição e reduzida/ausência de dor na segunda posição. A profundidade dos sintomas também deve ser avaliada, pois dor superficial provavelmente indica sintomas articulares acromioclaviculares e dor profunda é mais provável indicar ​​sintomas do labrum.

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Tem sido relatado em diversos estudos que a sensibilidade e especificidade do teste de compressão ativa de O'Brien varia amplamente, com uma especificidade que varia entre 28%-73% e uma sensibilidade entre 63%-94%.

No entanto, quando agrupado com outros testes para as lesões do labrum glenoideu, tais como o teste de  apreensão anterior, teste de Crank, um ou ambos os testes de Carga do Bicípite, teste de Speed, ou Yergerson a sensibilidade global passa a ser de 75% e a especificidade de 90%.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Luxação da articulação acromioclavicular


A articulação acromioclavicular é formada pela extremidade externa da clavícula e pelo acrómio (processo ósseo que se projecta para a frente a partir da parte superior da cintura escapular e palpável na parte mais alta do ombro).
Os dois ossos são unidos directamente pelo ligamento acromioclavicular. Existem outros dois ligamentos importantes para a estabilidade desta articulação: o ligamento coracoclavicular, que une a clavícula ao processo coracóide; e o ligamento coracoacromial, que une o acrómio ao processo coracóide e é muito importante para manter a correcta posição da cabeça do úmero durante os movimentos de elevação a mais de 90o.
As lesões nas articulações acromioclaviculares são comuns e muitas vezes observadas após quedas de bicicleta, em desportos de contacto e em acidentes de carro. Dependendo da gravidade da lesão, a pessoa pode romper um ou todos os ligamentos. As rupturas mais graves poderão levar a uma separação da articulação e a uma deformação facilmente visível.
Lesões da articulação acromioclavicular são o achado mais comum nas consultas médicas após uma lesão traumática no ombro (a luxação do ombro é a segunda mais comum), e os homens entre os 20-40 anos são os mais afectados. A maioria das lesões envolve rupturas incompletas dos ligamentos.

Sinais e sintomas/ Diagnóstico

Imediatamente após a lesão sentirá sensibilidade e inchaço generalizados do ombro. No entanto, à medida que a dor vai diminuindo, poderá transformar-se num ponto específico sobre a articulação que apresente sensibilidade e dor ao toque e em determinados movimentos.
Poderá observar-se um abaulamento ou proeminência significativa da extremidade distal da clavícula.
Muitas pessoas têm dor nocturna e acordam por causa da dor quando rodam para o lado do ombro afectado.
Raramente, o paciente relata estalos ou prisão da articulação acromioclavicular.
As lesões da acromioclavicular podem são classificadas de 1-6, utilizando a escala de Rockwood, dependendo da extensão da lesão no ligamento e do espaço entre o acrómio e a clavícula.
  • Grau 1 equivalem a um estiramento simples da articulação, 
  • Grau 2 envolve a ruptura do ligamento acromioclavicular, 
  • Grau 3 envolve a ruptura dos três ligamentos da articulação e que geralmente resulta num deslocamento superior da clavícula. Deste ponto em diante, a escala e o grau de lesão depende do grau de deslocamento da clavícula. 
  • Grau 4 envolve deslocamento superior e posterior, 
  • Grau 5 envolve um deslocamento superior, 3-5 vezes maior que o normal espaço coracoclavicular. Nos graus 3, 4 e 5 a extremidade da clavícula estará bastante mais saliente. 
  • No grau 6, acontece o contrário, a saliência da clavícula desaparece em consequência da ruptura de ligamentos e do deslocamento inferior deste osso.
Uma boa avaliação, incluindo uma história clínica e exame atento do ombro, é geralmente suficiente para diagnosticar uma luxação da acromioclavicular. No entanto exames adicionais, como raio-x poderão ser pedidos para avaliar o grau da lesão. Uma RM pode ser necessária se houver suspeita de comprometimento dos nervos do plexo braquial.

Tratamento

          A maioria das luxações de grau 1, 2 e 3 da acromioclavicular não necessitam de cirurgia e respondem bem ao tratamento adequado de fisioterapia. A maioria das pessoas se recuperar totalmente, sem quaisquer problemas, no entanto sobrecarga atletas e operários podem ter sintomas persistentes e requerem cirurgia. O tratamento inclui:
Descanso: repouse de todas as actividades que causam dor. Principalmente de actividades que envolvam elevação do braço ou levantamento de pesos.
Gelo: Aplique uma compressa de gelo na área lesada, colocando uma toalha fina entre o gelo e a pele. Use o gelo por 20 minutos e depois espere pelo menos 40 minutos antes de aplicar gelo novamente.
Analgésicos e anti-inflamatórios não-esteróides poderão ser receitados pelo médico para controlar o processo inflamatório e aliviar as dores.
         O seu fisioterapeuta poderá aplicar uma ligadura com tape para estabilizar e dar suporte à articulação.
         Assim que a dor permita (geralmente entre 7-14 dias após a lesão) deve iniciar um plano de exercícios com o objectivo de restaurar a mobilidade articular do ombro, e de reeducar o normal funcionamento das articulações do ombro.
      Gradualmente deverão ser introduzidos exercícios de fortalecimento muscular da região do ombro, preferencialmente em posições de estabilidade da articulação (abaixo dos 90o, em rotação externa, com o braço ligeiramente afastado do tronco).
A cirurgia é indicada para algumas luxações de grau 3 e para todas as luxações de grau 4,5 e 6. Nestas ultimas a clavícula deve ser realinhada pelo ortopedista e sob anestesia, seguida de fixação cirúrgica com placa e parafusos.
Para algumas luxações de grau 3 ou para pacientes que ainda apresentem dor e limitação funcional 3-6 meses após a lesão, é geralmente indicada a artroscopia para remoção do tecido lesado combinada com a descompressão do espaço subacromial.

Exercícios terapêuticos para as luxações da acromioclavicular

Os seguintes exercícios são geralmente prescritos durante a reabilitação de uma luxação da acromioclavicular. Deverão ser realizados 2 a 3 vezes por dia e apenas na condição de não causarem ou aumentarem os sintomas.

Adução das omoplatas
Em pé ou sentado, com os cotovelos dobrados. Puxe os ombros e cotovelos para trás e para baixo. Mantenha a posição durante 8 segundos. Retorne lentamente à posição inicial.
Repita entre 8 a 12 vezes, desde que não desperte nenhum sintoma. 




 

Fortalecimento dos adutores da omoplata
De joelhos ou em pé, com ombros e costas alinhados e cotovelos a 90o. Puxe os cotovelos para trás mantendo a posição dos ombros. Retorne lentamente à posição inicial.
Repita 8 a 12 vezes, desde que não desperte nenhum sintoma



Mobilização da cintura escapular
Em pé, com as costas alinhadas e o ombro posicionado para baixo e para trás. Vá subindo com a mão pela parede, ao mesmo tempo mantenha a posição do ombro, em baixo e para trás.
Repita 15 a 30 vezes, desde que não desperte nenhum sintoma




Antes de iniciar estes exercícios você deve sempre aconselhar-se com o seu fisioterapeuta.