O ligamento cruzado
posterior (LCP) é um importante estabilizador do joelho, e está localizado no
interior da articulação. Dispõe-se em diagonal desde a parte posterior e
lateral da superfície articular da tíbia até à parte anterior e medial do sulco
inter-condiliano do fémur. O LCP controla os movimentos de deslizamento posterior da tíbia sobre o fémur.
As lesões no
ligamento cruzado posterior são raras e requerem a aplicação de uma força
considerável. Acontece sobretudo quando o joelho dobrado bate contra o painel
do carro num acidente de viação, ou bate contra o chão quando um atleta cai
para a frente sobre o joelho. Devido ao seu mecanismo lesivo, as rupturas do
LCP são mais frequentes em jovens que praticam desportos de contacto, como
futebol, andebol ou basquetebol.
Estas rupturas
podem ser classificadas segundo a sua gravidade em:
- Grau I (leve). Também chamada de distensão. É um estiramento que causa apenas lesões microscópicas nos ligamentos.
- Grau II (moderada). Um estiramento mais severo, que causa uma ruptura parcial do ligamento.
- Grau III (grave). O ligamento é completamente rasgado por um estiramento brusco, geralmente durante um acto desportivo ou num acidente.
Sinais e sintomas/ Diagnóstico
Em qualquer lesão dos ligamentos do joelho, os sintomas tendem a ser semelhantes, mesmo que esteja
afectado mais que um ligamento. A severidade dos sintomas
depende do grau da lesão ao ligamento.
- Uma sensação de estalido ou ressalto no momento da lesão às vezes pode ser ouvido se o ligamento tiver sido totalmente rasgado.
- Inchaço do joelho. Quando o ligamento é lesado, pode haver algum sangramento dentro da articulação do joelho. Isso pode levar a inchaço do joelho.
- Dor. Novamente, o grau de dor irá depender da gravidade da lesão.
- Sensibilidade ao toque no joelho.
- Limitação da mobilidade normal do joelho. Em rupturas completas do ligamento, o movimento pode estar severamente comprometido.
- Sensação que o joelho está instável, com folga, podendo limitar a marcha.
Uma boa avaliação, incluindo uma história clínica e
exame atento do joelho são geralmente suficientes para diagnosticar a ruptura
do LCP. Uma ecografia ou RM
podem ser pedidas para confirmar o diagnóstico e avaliar a gravidade da lesão.
Tratamento
O
tratamento em fisioterapia, nas primeiras 48 a 72 horas após a lesão e enquanto
o diagnóstico não está confirmado, consiste e controlar os sinais
inflamatórios, através de:
Descanso: Evite caminhar ou
estar muito tempo de pé. Se tiver de o fazer utilize canadianas. Andar a pé pode significar um agravamento da sua lesão.
Gelo: Aplique uma
compressa de gelo na área lesada,
colocando uma toalha fina entre o gelo e a pele. Use o gelo por 20 minutos e depois espere pelo menos 40 minutos antes de aplicar gelo novamente.
Compressão: um joelho elástico pode ser usado para controlar o
inchaço.
Elevação: A perna deve ser
elevada um pouco acima do nível do seu coração para reduzir o inchaço.
Analgésicos e
anti-inflamatórios não-esteróides poderão ser receitados pelo médico para
controlar o processo inflamatório e aliviar as dores.
Após este período,
e com o diagnóstico confirmado, o tratamento irá depender da gravidade da
lesão:
Nos estudos realizados para lesões do LCP
provocadas durante a prática desportiva, o tratamento conservador é uma boa
opção, com um prognóstico bastante satisfatório. Num dos estudos, com um
seguimento médio de 6,2 anos, 80% dos pacientes estavam satisfeitos com os joelhos
e 84% haviam retornado ao seu desporto anterior (68% no mesmo nível de
desempenho, 16% em uma diminuição do nível de desempenho), no entanto nenhum dos
atletas apresentava lesões graves, de grau III.
Tratamento
conservador fase 1 (1ª duas semanas após a lesão)
- Descanso, gelo, compressão e elevação
- Pacientes com lesões grau I e grau II podem suportar o peso do corpo, sem canadianas. Já nas lesões de grau III a sua utilização é fundamental.
- Estimulação eléctrica funcional (FES) pode ser usada para estimular o músculo quadricípite.
- Exercícios de fortalecimento estático do quadricípite.
Tratamento conservador
fase 2 (da 2ª à 8ª semana)
- Apenas pacientes com lesões grau III devem continuar a usar ligadura compressiva, pelo menos até a terceira semana de fisioterapia. Depois disso poderá ser aplicada uma ligadura funcional.
- Nas lesões grau III o suporte do peso do corpo pode ir progredindo conforme a tolerância do paciente. O uso de canadianas deve poder ser interrompido entre a 2ª e a 3ª semana.
- Os exercícios realizados na fase 1 devem progredir, com a aplicação de resistência, conforme tolerado pelo paciente.
- Andar de bicicleta estacionária e exercícios aquáticos pode ser recomendado, para melhorar a amplitude de movimento.
- Entre a 3ª e a 6ª semana devem ser introduzidos exercícios em carga, como o leg press e agachamentos.
- No final da 6ª semana deve ser introduzida a caminhada ou corrida ligeira, dependendo das limitações do paciente.
- À 8ª semana começar a introduzir exercícios próximos do gesto desportivo e à 10ª semana reintroduzir a prática desportiva ou o trabalho
Tratamento cirúrgico
fase 1 (1ª duas semanas após cirurgia)
Existe uma grande variedade de abordagens
cirúrgicas para a reconstrução do LCP, em parte pela falta de conhecimento sobre
a história do mecanismo lesivo e da biomecânica do ligamento. Pelo que um plano
de tratamento especifico deve ser elaborado pelo fisioterapeuta, tendo em
conta, entre outros factores, a abordagem cirúrgica realizada.
- Na fase inicial do pós-operatório, é muito importante controlar a dor e o inchaço através do gelo, da compressão e da elevação.
- Nesta fase o paciente deve utilizar 2 canadianas
- A preservação da mobilidade da rótula é importante, e o paciente deve ser instruído com exercícios de auto-mobilização da rótula e tecidos moles em torno da rótula para evitar fibrose.
- Mobilização passiva do joelho deverá ser iniciada (0-90 °), enfatizando a extensão completa.
Tratamento cirúrgico
fase 2 (da 2ª à 8ª semana)
- O paciente deve melhorar gradualmente a amplitude de movimento (0-130 °) durante este período. O alongamento passivo é usado consoante necessário para recuperar a mobilidade. A mobilização da rótula continua a ser importante.
- O paciente deve conseguir suportar carga total e as canadianas são retiradas segundo indicação do médico.
- Entre a 4ª e a 6ª semana pode ser aplicada uma ligadura funcional e iniciados os exercícios em carga.
- No final da 6ª semana deve ser introduzida a caminhada ou corrida ligeira, dependendo das limitações do paciente.
- À 8ª semana começar a introduzir exercícios próximos do gesto desportivo e à 10ª semana reintroduzir a prática desportiva ou o trabalho
Exercícios terapêuticos para a ruptura do ligamento cruzado posterior
Os seguintes exercícios são geralmente prescritos
durante a reabilitação de uma ruptura do ligamento cruzado posterior. Deverão ser
realizados 2 a 3 vezes por dia e apenas na condição de não causarem ou aumentarem os sintomas.
Fortalecimento do quadricípite
Deitado, com um rolo sob o joelho. Contraia o músculo da coxa e perna
de forma a esticar o joelho e puxar a ponta do pé para si.
Repita entre 8 a
12 vezes, desde que não desperte nenhum sintoma.
Fortalecimento
dos quadricípites
Em pé, com a
região lombar apoiada na bola e os pés ligeiramente afastados. Dobre os joelhos
até aos 45o/60o, mantendo as costas alinhadas. Suba
lentamente para a posição inicial.
Repita entre 8 a
12 vezes, desde que não desperte nenhum sintoma.
Alongamento
activo da cadeia posterior
Deitado, com um
elástico na ponta do pé, com a coxa e joelho dobrados a 90o.
Mantenha a tensão no elástico enquanto estica o mais possível o joelho, puxado
a ponta do pé para si. Mantenha a posição durante 20 segundos.
Repita entre 5 a 10 vezes, desde que não desperte
nenhum sintoma.
Antes de iniciar estes exercícios você deve
sempre aconselhar-se com o seu fisioterapeuta.
Edson CJ, Fanelli GC, Beck JD. Postoperative rehabilitation of the
posterior cruciate ligament. Sports Med Arthrosc. 2010 Dec;18(4):275-9.
Lopez-Vidriero E, Simon DA, Johnson DH. Initial evaluation of posterior
cruciate ligament injuries: history, physical examination, imaging studies,
surgical and nonsurgical indications. Sports
Med Arthrosc. 2010 Dec;18(4):230-7.
