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segunda-feira, 1 de julho de 2013

Radiculopatia cervical - estudo de caso clínico

A radiculopatia cervical (RC) é uma condição patológica na raiz dos nervos cervicais (RNC), que pode levar à dor crónica e incapacidade. O início desta condição é geralmente insidioso e mais comumente é causado por perturbação do disco cervical ou outra lesão que ocupe o espaço reservado à passagem do nervo, resultando em inflamação da raiz nervosa, compressão ou ambos.

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A presença de estímulos lesivos ao redor da RNC altera a sua estrutura e função normais, conduzindo eventualmente à inflamação neural, ao edema, à hipoxia, isquemia e/ou fibrose, limitação do movimento de deslizamento e aumento da mecanosensibilidade. Com base neste conceito, muitas intervenções terapêuticas manuais têm sido propostas para restabelecer estas alterações e, portanto, para eliminar a dor e incapacidades causadas pela RC.

O objetivo deste estudo de caso é apresentar o efeito da tração cervical combinado com mobilização neural na dor e incapacidade de um paciente com RC.

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Apresentação de caso

  • A paciente apresentou-se com uma história de dor cervico-braquial neurológica com dois meses de duração.
  • Os sintomas tiveram início súbito, sem nenhuma causa aparente, e eram:
  1. Dor em queimação constante abaixo do lado occipital e esquerdo do pescoço (dor A - 4/10)
  2. Dor tipo choque eléctrico constante, irradiando a partir da face lateral do ombro esquerdo para a articulação do cotovelo (dor B - 4/10).
  3. Sensação de formigueiro que ocorre na face lateral da articulação do cotovelo.
  • Há três semanas atrás, e sem nenhuma razão aparente, a intensidade dos sintomas aumentou significativamente (dor A - 8/10, e dor B - 7/10), afetando o trabalho da paciente como administrativa e forçando-a a visitar um médico ortopedista.
  • Raios-X, ressonância magnética e tomografia computadorizada da coluna cervical indicaram um diagnóstico de RC, devido a estenose foraminal cervical entre C4-C5.
  • Os sintomas foram relacionados e agravados (dor A - 10/10, Dor B - 10/10) com certos movimentos do pescoço (extensão, rotação ipsilateral e inclinação) ombro (abdução), cotovelo (extensão completa) e punho (extensão).
  • O consumo de anti-inflamatórios não-esteróides por parte da paciente não proporcionou qualquer alívio da dor.

Exame Físico

  • A observação da postura da paciente em posição de pé e sentado ao computador revelou uma postura anteriorizada da cabeça, em que a parte superior e inferior da coluna cervical estavam em extensão e flexão, respectivamente.
  • A correção da postura da cabeça agravou os sintomas da paciente.
  • No exame neurológico, o dermátomo C5 demonstrou redução da sensação ao toque leve.
  • Diminuição da resistência do deltóide esquerdo (3/5) e bíceps (4/5), mas o reflexo de C5 foi normal.
  • Foram aplicados movimentos combinados à coluna cervical para avaliar se os sintomas da paciente eram devidos à estenose foraminal:
  1. A aplicação da extensão do pescoço combinada com rotação ipsilateral e flexão lateral agravou a dor A e B, enquanto a aplicação de flexão do pescoço combinada com rotação contralateral e flexão lateral foi menos dolorosa.
  • Uma série de diagnóstico clínico que consiste na aplicação da manobra de Spurling, teste de Distracção da cervical, teste de tensão neural do membro superior (nervo mediano) e rotação ipsilateral do pescoço (inferior a 60º) foi realizada para confirmar o diagnóstico de RC. Todos os testes foram positivos, porque reproduziram ou aliviaram os sintomas da paciente.
  • Foram aplicados movimentos acessórios passivos intervertebrais póstero-anteriores, grau IV, como descrito por Maitland, sobre todos os processos espinhosos cervicais e identificando C4-C5 como o nível mais afectado.

Tratamento

  • A paciente foi convidada a participar de 12 sessões de tratamento (três vezes por semana durante quatro semanas).
  • Em cada sessão, ela foi colocada em decúbito dorsal, com o pescoço em posição neutra, recebendo tração cervical intermitente grau III e técnicas de mobilização neural (TMN) para deslizamento do nervo mediano, realizados de forma lenta e oscilatória.
  • Foram aplicadas 6 séries de tração cervical, simultaneamente com a mobilização neural, por sessão. A tracção cervical foi aplicada por um fisioterapeuta assistente e mantidas durante 1 min e durante este período o fisioterapeuta principal aplicou as mobilizações neurais.
  • Tração cervical e mobilizações neurais foram aplicadas ao mesmo tempo e cada série foi seguida por um período de repouso de 30s.
  • Foram recolhidos os resultados no início e após 2 e 4 semanas de tratamento.

Resultados


Conclusões

Este estudo descreve o efeito da tração cervical combinada com mobilização neural sobre a dor e incapacidade num caso de RC. Estas técnicas foram aplicadas simultaneamente, em vez de separadamente, por duas razões:

  • Para proporcionar uma gestão mais eficaz da dor, devido à sua ação analgésica. Portanto, neste caso clínico foi levantada a hipótese de que a utilização simultânea das duas modalidades vai potenciar o efeito analgésico da terapia manual no tratamento da RC.
  • Para evitar possível agravamento da dor. Na compressão da raiz do nervo, a presença de estímulos mecânicos pode não permitir a sua mobilização e isto pode aumentar a dor devida a RC. Assim, a tração cervical foi aplicada para alongar o foramen neural cervical em C4-C5 e descomprimir a raiz do nervo C5 enquanto se aplicavam as mobilizações neurais.
Verificou-se que a utilização simultânea de tracção cervical e TMNs pode tratar esta patologia em particular. Futuros estudos utilizando amostras maiores e medidas objetivas são necessários para melhorar ainda mais o nosso conhecimento sobre o efeito analgésico da tração cervical combinada com mobilização neural sobre as RC.




Savva CGiakas GThe effect of cervical traction combined with neural mobilization on pain and disability in cervical radiculopathy. A case report. Man Ther. 2012 Jul 17.


quarta-feira, 12 de junho de 2013

Síndrome do túnel társico

O túnel do tarso é um canal estreito que fica na parte interna do tornozelo, formado pelos ossos do tornozelo e os ligamentos do retináculo flexor, que tem como função proteger e manter as estruturas contidas no seu interior (artérias, veias, tendões e nervos) na posição correcta
Uma dessas estruturas é o nervo tibial posterior, onde se origina a síndrome do túnel társico.
Esta síndrome consiste na compressão do nervo tibial posterior, produzindo sintomas ao longo do trajecto do nervo, que vai do interior do tornozelo à planta do pé. 
O seu comportamento é semelhante à síndrome do túnel do carpo, que ocorre no pulso. Ambos os distúrbios decorrem da compressão de um nervo num espaço de passagem estreito. 
A síndrome do túnel társico é relativamente pouco frequente e afecta sobretudo as mulheres entre 45 e 50 anos. Os principais factores de risco são o excesso de trabalho em carga, uma história de traumatismo ou fractura ou exercícios repetitivos em flexão plantar.

Sinais e sintomas/ Diagnóstico

  • Formigueiro, ardor, dormência ou sensação semelhante a um choque eléctrico no tornozelo e/ou na planta do pé
  • Dor, incluindo uma pontada de dor do tornozelo em direcção à planta do pé
  • Um pequeno nódulo no nervo, logo acima da passagem pelo ligamento, pode estar presente.

Muitas vezes os sintomas são agravados pelo uso excessivo do pé, como estar em pé muito tempo seguido, ou começar um novo programa de exercícios. É muito importante procurar um tratamento precoce, caso contrário o mecanismo lesivo mantêm-se, podendo resultar em danos permanentes do nervo.
Como os sintomas da síndrome do túnel társico podem ser confundidos com outras condições, uma avaliação cuidada é essencial para um diagnóstico acertado. Durante a avaliação clínica, o nervo deve ser palpado, de forma a perceber se os sintomas provêm desta estrutura. 
Na presença de um nódulo suspeito uma ecografia pode ser pedida. A electromiografia pode ajudar a determinar a gravidade da lesão através do estudo da velocidade de condução nervosa.

Tratamento

Existem várias opções de tratamento conservador (não-cirurgico), que muitas vezes são utilizadas de forma combinada, por desta forma serem mais eficazes na redução dos sintomas:
Descanso: Evite caminhar ou estar muito tempo de pé. Se tiver de o fazer utilize canadianas. Andar a pé pode significar um agravamento da sua lesão.
Gelo: Aplique uma compressa de gelo na área lesada, colocando uma toalha fina entre o gelo e a pele. Use o gelo por 20 minutos e depois espere pelo menos 40 minutos antes de aplicar gelo novamente.
Medicação oral. Os anti-inflamatórios não-esteróides (AINEs), como o ibuprofeno, ajudam a reduzir a dor e a inflamação.
Imobilização. Restringindo o movimento do , vestindo um elenco às vezes é necessário habilitar o nervo e tecido circundante para curar.
Fisioterapia:
  • Mobilização/manipulação articular do tornozelo
  • Alongamento suave e prograssivo das estruturas afectadas
  • Massagem de mobilização dos tecidos moles.
  • Aplicação de ultra-sons da zona de dor.
  • Palmilhas personalizadas podem ser prescritas para ajudar a manter o arco plantar e limitar o movimento excessivo, que pode causar compressão do nervo.

Uma infiltração com cortico-esteróides dada na zona dos sintomas por um ortopedista pode aliviar temporariamente a dor
A descompressão cirúrgica por secção do retináculo flexor deve ser considerada quando o paciente não responde ao tratamento conservador, mantendo-se com dores limitativas para as actividades da vida diária.

Exercícios terapêuticos para a síndrome do túnel társico

Os seguintes exercícios são geralmente prescritos durante a reabilitação da síndrome do túnel társico. Deverão ser realizados 2 a 3 vezes por dia e apenas na condição de não causarem ou aumentarem os sintomas.




Flexão/extensão do pé
Deitado, com o calcanhar fora da cama, puxe a ponta do pé e dedos para si, depois empurre pé e dedos para baixo.
Repita entre 15 e 30 vezes, desde que não desperte nenhum sintoma.

  




 Extensão resistida do pé
Sentado com a perna esticada e o elástico na ponta do pé. Empurre o elástico para a frente, depois deixe o pé regressar lentamente à posição inicial.
Repita entre 8 e 12 vezes, desde que não desperte nenhum sintoma.


 Antes de iniciar estes exercícios você deve sempre aconselhar-se com o seu fisioterapeuta.


Franson J, Baravarian B. Tarsal tunnel syndrome: a compression neuropathy involving four distinct tunnels. Clin Podiatr Med Surg. 2006 Jul;23(3):597-609.
DiDomenico LA, Masternick EB. Anterior tarsal tunnel syndrome. Clin Podiatr Med Surg. 2006 Jul;23(3):611-20.
Lorei MP, Hershman EB. Peripheral nerve injuries in athletes. Treatment and prevention. Sports Med. 1993 Aug;16(2):130-47.