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terça-feira, 7 de janeiro de 2014

E depois de vencer o cancro?

Entrevista com:
Fisioterapeuta Nuno Duarte

P.: É do conhecimento geral que tanto a doença oncológica em si como os próprios tratamentos para essa doença deixam sequelas no corpo do paciente. Em que condições oncológicas é mais frequente a intervenção do fisioterapeuta para debelar essas sequelas, e através de que tipo de técnicas?

Em primeiro lugar é urgente que se desmitifique a intervenção em oncologia. Ao longo dos anos houve sempre a noção que na área da fisioterapia nada se podia fazer ao doente oncológico, que tudo seria contra-indicado... O que na realidade, está longe de ser verdade. Actualmente existe um êxito enorme na luta contra o cancro, conseguindo-se em muitos casos a cura e noutros um aumento de longevidade com uma boa qualidade de vida. 

Nos últimos anos, um dos grandes objectivos da prestação de cuidados ao doente oncológico, a sobrevivência, foi largamente atingido, levando a que o nº de sobreviventes tenha aumentado progressivamente, levando a que os profissionais de saúde se foquem noutro objectivo, a qualidade de vida. Penso que os fisioterapeutas serão um elemento imprescindível a uma equipa que se preocupe com a QdV do doente oncológico. Este será o grande contributo do fisioterapeuta ao doente oncológico, promover a sua QdV. 

A nossa intervenção em oncologia é feita em áreas muito diversificadas, como a  neurológica, ortopédica, vascular, respiratória, pediatria… As técnicas utilizadas serão as mesmas de outras áreas de intervenção, no entanto, torna-se imprescindível que o fisioterapeuta tenha conhecimentos na área da oncologia que permitam ponderar a selecção e aplicação dessas mesmas técnicas. Penso que o fisioterapeuta só poderá ter um desempenho satisfatório em oncologia, caso tenha conhecimento sobre: efeitos das terapias oncológicas (cirurgia, RT, QT, HT, IT), estado emocional do doente oncológico, sinais/sintomas das principais metástases, dor oncológica. 

Será sempre necessário, à semelhança do que acontece noutras áreas de intervenção, que o fisioterapeuta tenha bom senso no decorrer da sua intervenção, que tenha a capacidade de adaptar a sua intervenção às mudanças, por vezes repentinas, do estado clinico do doente oncológico. Esta capacidade não é conseguida apenas com conhecimento teórico, será necessário que exista sensibilidade, uma preocupação constante com o doente, de forma a que seja possível antecipar cenários. Por essa razão, na minha opinião, existem pessoas com um perfil ideal para trabalhar em oncologia, outras vão adquirindo esse mesmo perfil e, alguns nunca chegam a adquiri-lo.

P.: Em qualquer reabilitação física é fundamental o envolvimento do paciente no tratamento, mas talvez nos casos de cancro isso assuma especial importância. O cancro da mama é um bom exemplo desta afirmação. Neste caso específico, que tipo de conselhos e indicações as pacientes levam para casa? Como se processa a reabilitação física em regime ambulatório?
O cancro da mama representa o principal grupo de doentes (em número) num Serviço de oncologia e é sem dúvida, provavelmente, a patologia oncológica com maior impacto na opinião pública. A sua pergunta não permite uma resposta curta, pois dependerá sempre do tipo de terapias oncológicas a que o doente será submetido. Vou responder partindo do princípio que estamos a falar de mulheres submetidas a cirurgias com esvaziamento ganglionar axilar (actualmente existe um nº crescente de mulheres submetidas a cirurgias apenas com biópsia do gânglio sentinela). 

Neste grupo específico, após a cirurgia, as doentes passam a estar inseridas num grupo de risco, quero dizer, passam a ter uma probabilidade acrescida de desenvolver um linfedema/infecções subcutâneas. Este risco permanece ao longo da vida da pessoa e poderá ser potenciado pelas restantes terapias oncológicas e pelo capital linfático (nº de estruturas linfáticas, qualidade da função linfática) de cada pessoa. 

Existem várias formas de abordagem, no entanto, existem linhas de orientação, a nível internacional, pelas quais guiamos a nossa intervenção. No caso específico do IPO de Lisboa, iniciamos a nossa intervenção 24 horas após a cirurgia. Nesta fase são dadas algumas informações (verbalmente e por escrito*) sobre a prevenção do linfedema (evitar efeitos de garrote, fontes de calor, esforços muito repetidos, pesos para além de 2Kg…) e de infecções subcutâneas (hidratação diária do membro, proteger-se sempre que exista perigo de corte/picada, desinfectar qualquer tipo de ferimento…). Iniciamos também um programa de exercícios que terão em conta a presença de drenos e/ou pontos. 

Aproximadamente 3 a 4 semanas após a cirurgia, geralmente numa fase em que as pequenas complicações pós cirúrgicas (linforreia abundante, seroma, deiscência…) estão resolvidas, iniciamos um tratamento no nosso Serviço. Inicialmente o tratamento é individual e dependerá sempre das complicações apresentadas (edema da mama/ parede, trombose dos linfáticos, aderências cicatriciais, diminuição da amplitude muscular, dor, alterações de sensibilidade…). 

Quando a doente já tem amplitudes normais ou próximas do normal, inicia uma classe de movimento, com o objectivo de aumentar a força muscular, a resistência ao esforço, aumentar/manter amplitudes articulares, promover o convívio com outras pacientes. O apoio por parte do fisioterapeuta dependerá sempre do protocolo de terapias oncológicas a que a doente está a ser submetida. Importa referir que a doente deve manter essa classe no decorrer da radioterapia. 

As doentes, após a alta, são reavaliadas periodicamente, contando com o apoio do nosso Serviço, ao longo de toda a sua vida. Por exemplo, nós tratamos pessoas com linfedema, que foram submetidas a cirurgia/RT há 40 anos atrás…A ideia é apoiar sempre que necessário.
*Nota: Podem consultar todos os folhetos que o IPOLFG disponibiliza aos seus doentes no site da instituição.

P.: Infelizmente, parece que o cancro é uma doença cada vez mais comum, e sempre associada ao estigma de um tratamento difícil, longo e doloroso. Sabendo que é uma questão difícil, mas sendo um profissional que já tratou tantos doentes de cancro... Quais são para si os principais motivos a que as pessoas se "agarram" quando é tempo de lutar contra esta doença? Pessoalmente, que palavra de motivação daria a uma pessoa nesta condição?
Não é fácil responder a essa questão. Na realidade o doente oncológico, à semelhança de outros doentes, pode passar por diferentes fases de adaptação à doença e, no nosso dia-a-dia, deparamo-nos com doentes que estão perfeitamente lúcidos sobre a sua real condição e outros que aparentemente têm uma negação à doença, mas em geral existe uma característica comum que passa por uma capacidade enorme (por vezes inexplicável) de lutar, de aguentar todo o trajecto de luta contra a doença. Sinceramente não me sinto confortável em opinar sobre essa matéria, pois não seria justo divagar sobre algo (o que leva as pessoas a não baixarem os braços) que na realidade desconheço…Pois as motivações, provavelmente, variam de pessoa para pessoa.

A minha única palavra para com as pessoas que estão a viver essa realidade é a de que felizmente nos últimos anos existiu um avanço enorme na oncologia médica, que permite que as pessoas não pensem no cancro como um sinónimo de “morte anunciada”, de algo contra o qual nada se pode fazer…A realidade actual é bem diferente e a cura é uma realidade.




Nuno Miguel de Faria Bento Duarte
Fisioterapeuta, doutorando em Saúde Pública/ramo de Epidemiologia (ENSP/UNL).
- Fisioterapeuta Coordenador do Serviço de Medicina Física e Reabilitação do Instituto Português de Oncologia FG Lisboa 
- Docente da Escola Superior de Saúde do Alcoitão  (Fisioterapia em oncologia/Terapia Linfática Descongestiva).
- Docente convidado da Faculdade de Medicina de Hannover no projecto “PoLyEurope Postgraduate Lymphology Training in Europe”.
- Representante da Ecole de Drainage Lymphatic Bruxelles / Methode Leduc em Portugal.
- Formador em cursos na área de “Tratamento do edema / Fisioterapia no cancro da mama”.
- Membro da Sociedade Europeia de Linfologia.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

As Metamorfoses do Espírito. Sobre o mal, a psicologia da filosofia e o Super-Homem

Recentemente tive o prazer de contactar com o colega Fisioterapeuta Luís Coelho, autor de vários livros, publicados e à venda em livrarias como a fnac e a Bertrand. 
A escrita do Luís é sem dúvida especial, e deve ser apreciada com a abertura de espírito com que se observa uma obra de arte, sempre preparados para o momento em que ela nos vai chocar, alegrar, envolver num abraço ou despertar-nos as emoções mais singulares. Ficam alguns fragmentos:

«O livre-arbítrio é a determinação da ilusão da liberdade de escolha.»

«Não pratiquemos a Virtude com vista ao Caminho, pratiquemos o Caminho com vista à Virtude»

É o tom de «As Metamorfoses do Espírito. Sobre o mal, a psicologia da filosofia e o Super-Homem», que chegou às livrarias Bertrand de todo o país. Obra que apresenta o lado mais luciferino da Espiritualidade.

Poderão ver mais no seu blogue pessoal: http://reeducacaopostural.blogspot.pt/

sábado, 12 de outubro de 2013

Acupunctura médica contemporânea, o que nos dá de novo?

Entrevista com:
Dr. Hugo Silva Pinto

P.: A acupunctura tradicional já se vê bastante difundida na nossa população. O que nos dá de novo, em termos de princípios, a acupunctura médica contemporânea?
A acupunctura contemporânea aborda o doente numa ótica anatomo-funcional. Isto é, com base num conhecimento neuro-anatómico e biomecânico precisos, é possível fazer uma integração entre os padrões de distribuição de dor e disfunção apresentados pelo doente, e a localização primária do problema.

P.: Como isso se traduz em benefícios efectivos desta técnica comparativamente à da medicina tradicional chinesa?
A MTC tem grandes vantagens como terapia pois estamos a puncturar na mesma, apesar de ser dum modo de punctura mais superficial e muitas vezes o objectivo não ser tratar os músculos ou nervos, mas sim o desequilíbrio na circulação do Chi nos meridianos que são superficiais. A nossa abordagem para patologia miofascial ou neuro-muscular ou musculo-esquelética, é muito mais vantajosa pois o nosso objectivo é, como referi, avaliar a musculatura, o tecido miofascial, os nervos periféricos e o seu estado de integração e funcionamento, tratando essas patologias de acordo com essa avaliação.

P.: Que lugar ocupa esta técnica num processo de reabilitação física? Esta serve como tratamento só por si ou deverá ser englobada num plano de tratamento em conjunto com outras técnicas?
Esta abordagem devia ser ensinada nas faculdades de medicina e de fisioterapia pois não só é extremamente útil como uma técnica complementar ou adjuvante de tratamento, mas também como método diagnóstico de envolvimento neurológico e muscular. Esta abordagem permite-nos avaliar as patologias músculo-esqueléticas dum modo muito mais eficaz pois para além dos testes de avaliação e diagnósticos musculares que já realizamos, com a acupunctura e Electroacupunctura, podemos confirmar se aqueles músculos especificamente são os envolvidos nas disfunções que os doentes nos apresentam e pelas quais recorrem às nossas consultas.

P.: Para terminar, algum novo projecto de investigação na calha? Ou sugestão de temas que pensa serem interessantes investigar no futuro?

Felizmente muitos. Para o nosso curso de pós graduação lecionado em Braga estabelecemos uma parceria de trabalho com o departamento de neurociências da faculdade de medicina da Universidade do Minho. Esta relação pretende abrir portas a projetos de investigação futuros, a serem realizados em ratos e em humanos nesta tão promissora área.


Hugo Silva Pinto
Médico de Medicina Desportiva,
Cédula Profissional 41144
Competência Acupunctura pela O.M. Portuguesa e pela B.M.A.S.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Pavimento pélvico, eterno inimigo da mulher?

Entrevista com:
Fisioterapeuta Andreia Antunes

P.: Uma boa função do pavimento pélvico é fundamental para, por exemplo, manutenção da continência e de uma boa função sexual. Que medidas de "higiene muscular" podem as mulheres adoptar para manter um bom tónus muscular do pavimento pélvico? E hábitos de vida, o que alterar? 
Sim, é verdade. Manter saudáveis os Músculos do Pavimento Pélvico (MPP) é essencial para a manutenção da continência (urinária e fecal) e para a função sexual. As mulheres, deveriam ser ensinadas a contrair correctamente os MPP. Deviam fazê-lo antes, durante e após a gravidez como medida preventiva. Diversos estudos demonstram uma diminuição do risco de vir a ter incontinência urinária nas mulher que efectuam exercícios do pavimento pélvico de forma regular durante a gravidez e no pós-parto. 

A contracção dos MPP pode ser ensinada de várias formas, contudo, a evidência demonstra que o seu ensino é mais eficaz e efectivo no contexto da avaliação por palpação vaginal. Recorrendo a um Fisioterapeuta Especializado em Pavimento Pélvico e efectuando uma avaliação cuidada, a mulher será ensinada a efectuar a contracção dos MPP correctamente e aconselhada a efectua-los de acordo com as suas necessidades individuais. Em relação aos hábitos de vida, considero importante referir que a obstipação e a obesidade constituem importantes factores de risco para as disfunções do Pavimento Pélvico (PP). É pois importante manter um dieta saudável, correcta ingestão de líquidos e níveis adequados de exercício físico como estratégias preventivas.

P.: É verdade que o trabalho muscular do pavimento pélvico pode facilitar a obtenção de prazer sexual pela mulher? Mesmo em casos de vaginismo? Como funcionam os tratamentos nestes casos?
É verdade que MPP funcionais são importantes para o mecanismo do orgasmo. Logo, um pavimento pélvico hipotonico pode ser uma das causas para a anorgasmia. Contudo é importante referir que a sexualidade feminina é multifactorial, não sendo correcto atribuir a anorgasmia a causas exclusivamente físicas, da mesma forma que pensar só em causas psicológicas pode ignorar uma disfunção do Pavimento Pélvico que esteja por trás da anorgasmia. 

O vaginismo consiste na impossibilidade de conseguir uma penetração vaginal. No vaginismo verifica-se, habitualmente, uma hipertonia dos Músculos do Pavimento Pélvico. Essa hipertonia que impede a penetração, pode ter uma etiologia diversa, nomeadamente psicológica. Acho crucial que a intervenção do Fisioterapeuta nos casos de disfunção sexual seja efectuada em equipa com um psicoterapeuta/ terapeuta sexual. Aquilo que a Fisioterapia Especializada em Pavimento Pélvico faz é melhorar a função dos Músculos do Pavimento Pélvico, quer a disfunção esteja relacionada com uma hipertonia ou hipotonia. Ensinar a mulher a conhecer o seu corpo e como ele funciona, é do meu ponto de vista muito importante para o sucesso nestas situações.

P.: Fala-se muito dos exercícios de Kegel. Qual a sua opinião sobre eles?
Exercícios de Kegel são os Exercícios dos Músculos do Pavimento Pélvico. Kegel foi quem primeiro os descreveu, daí o nome dele ter ficado associado ao exercícios. De qualquer forma, como já referi antes é importante que a mulher seja avaliada para lhe ser indicado um nível de treino adequado a ela e para garantir que está a efectuar os exercícios da forma correcta. Os exercícios de Kegel, se efectuados correctamente, são uma importante arma à disposição da mulher para que o Pavimento Pélvico deixe de ser o seu eterno inimigo e passe a ser o seu eterno amigo! 

P.: Para terminar, algum novo projecto de investigação na calha? Ou sugestão de temas que pensa serem interessantes investigar no futuro?
Quanto mais estudo a área do Pavimento Pélvico mais acho que há a descobrir. Interesso-me muito pela intervenção da Fisioterapia no caso das Disfunções Sexuais, que sendo uma área pouco explorada e bastante sensível, apresenta resultados positivos bastante elevados quando conjugada com a Terapia Sexual. 
Acho que seria interessante tentar relacionar algumas disfunções do Pavimento Pélvico com a Postura. E não esquecer os homens, que também apresentam Disfunções Urinárias, Anorectais e Sexuais, em que o Fisioterapeuta pode ajudar! Estas disfunções não são exclusivas das Mulheres. 

Era importante que a comunidade médica, especialmente as Especialidades que lidam de perto com as Disfunções Urinárias, Ano-rectais e Sexuais, compreendesem que o Pavimento Pélvico sendo uma estrutra comum ao Sistema Urinário, Reprodutor e Digestivo, que está envolvido nas funções Urinária, Anorectal e Sexual, deve ser considerado quando se encontra presente uma disfunção. Uma correcta função do Pavimento Pélvico é crucial para a manutenção da função urinária, ano-rectal e sexual. O Fisioterapeuta Especialista em Pavimento Pélvico é o profissional a consultar! 


Andreia Antunes
Fisioterapeuta especializada em Saúde da Mulher e Pavimento Pélvico.
Pós-graduações em Preparação para o Nascimento, Pós-Parto, Toque no Bebé e em Fisioterapia na Saúde da Mulher. 
Instrutora de Pilates Clínico com certificação internacional atribuída por “balance & control” e “WellWomen” Austrália. 
Práctica Privada no Porto e em Lisboa:

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Lesões no ombro, o jugo da liberdade de movimento?

Entrevista com: 
Dr. Pedro Costa

P.: O ombro é das articulações que mais sofre de lesões por esforços repetitivos. Pode resumir-nos o que é que na mecânica desta articulação a torna tão susceptível a este tipo de lesão?
Há , de facto, várias características desta articulação que a tornam particularmente susceptível de sofrer tantas lesões. Em primeiro lugar o ombro é a articulação do nosso corpo com mais mobilidade. A sua anatomia permite um enorme arco de movimento em várias direcções  o que possibilita o posicionamento da mão no espaço e a realização de tarefas que, por este motivo, só são possíveis à espécie humana. Esta grande mobilidade leva, por exemplo, aos problemas de instabilidade muito frequentes no desporto. Em segundo lugar, o ombro apresenta vários espaços “de deslizamento” entre osso e tendões. É o caso do espaço sub-acromial entre o osso acrómio e o tendão do músculo supra-espinhoso. Com os movimentos repetitivos  em posições extremas, devido à profissão ou desporto praticado, surge o “conflitosub-acromial” em que há uma inflamação e/ou desgaste do tendão por contacto repetitivo com  o osso. Isto leva à inflamação (a conhecida “tendinite”) e mesmo à ruptura dos tendões. Por último, somos cada vez mais activos até uma idade mais avançada o que leva a um desgaste natural dos músculos e tendões. Assim, enquanto na anca ou no joelho, como são articulações de carga, surge a artrose por desgaste da cartilagem, no ombro aparecem com muita frequência rupturas “degenerativas” dos tendões por fadiga.

P.: O que pode ser feito como prevenção para evitar o desgaste dos componentes articulares, sobretudo em pessoas com tarefas laborais ou desportivas repetitivas?
Na prevenção das lesões do ombro é essencial manter um bom equilíbrio muscular. Como o ombro tem músculos e tendões que “puxam” em várias direcções, é frequente surgirem desiquilíbrios por predominância de uns grupos musculares sobre outros devido às tarefas repetitivas do trabalho ou desporto praticado. Assim, é muito importante a compensação dos músculos e tendões menos trabalhados para evitar as situações de instabilidade ou conflito de que falei anteriormente. Depois é também importante “respeitar” a dor quando ela surge e saber que ela é efectivamente um sinal de alarme, que algo vai mal e que é preciso investigar para se poder tratar em tempo útil e não deixar avançar uma eventual lesão.

P.: Depois de só a artroscopia ser solução, o que espera o paciente logo após a cirurgia? Pode dar-nos alguns prognósticos de reabilitação médios para diferentes intervenções por artroscopia nesta articulação?
Actualmente o tratamento cirúrgico das lesões do ombro é praticamente todo efectuado por artroscopia. À excepção das artroplastias por artrose e das fracturas, todas as reparações tendinosas e ligamentares são efectuadas por artroscopia. Esta técnica permite uma cirurgia muito mais anatómica e de recuperação muito mais rápida. Mesmo assim, a cicatrização demora muito e é frequente uma paragem prolongada depois de uma cirurgia ao ombro. Para dar alguns exemplos, depois de uma reparação de uma instabilidade é necessário estar 3 meses sem praticar desporto e depois de uma reparação dos tendões da coifa dos rotadores são necessários de 3 a 6 meses para recuperar um ombro normal. No entanto, é importante ter a noção de que com as técnicas cirúrgicas actuais e com a recuperação adequada e bem acompanhada é possível e frequente a recuperação a 100% para o trabalho e desporto.

P.: Para terminar, algum novo projecto de investigação na calha? Ou sugestão de temas que pensa serem interessantes investigar no futuro?
Actualmente o “projecto” que tenho passa mais pela tentativa de aproximação entre os vários intervenientes no tratamento das lesões do ombro. Tem havido uma sub-especialização progressiva dentro da Ortopedia Geral no sentido de nos dedicarmos a uma só articulação. No meu caso, senti esta necessidade ao terminar a especialidade e fiz uma sub-especialização em Ombro durante 1 ano em Lyon, França em 2003. Desde aí que me tenho dedicado só ao estudo e tratamento da patologia do ombro. Com esta evolução e com a ajuda da tecnologia, a cirurgia do ombro evoluiu muito nos últimos anos e consequentemente melhoraram muito os resultados obtidos nos doentes que tratamos. Julgo que há actualmente a necessidade de aproximação entre o médico assistente, o médico fisiatra, o fisioterapeuta que acompanha e trata o doente e o cirurgião do ombro para que todos falem a “mesma língua” e se possa optimizar o tratamento destas lesões do ombro que são frequentemente tão  incapacitantes mas que têm, hoje em dia, a possibilidade de recuperação total.
 Nesse sentido tenho organizado com alguma frequência reuniões e cursos para médicos de MGF e para fisioterapeutas onde discutimos o que fazemos e as várias vertentes e possibilidades de tratamento das lesões do ombro. A próxima está já programada para Outubro/2013 e deixo aqui o convite e o desafio a quem lida com o Ombro para comparecer e partilhar a sua experiência e abordagem no tratamento destas lesões.


Pedro Costa
Médico Ortopedista, especialista em lesões do ombro
Coordenador da Unidade do Ombro do Hospital Pedro Hispano e do Hospital Privado da Boa Nova
Membro da:
Sociedade Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia
Sociedade Portuguesa de Artroscopia e Traumatologia Desportiva
Secção do Ombro da Sociedade Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia
SECEC - Sociedade Europeia de Cirurgia do Ombro e Cotovelo



terça-feira, 6 de agosto de 2013

A Fisioterapia no ténis de elite

Entrevista com:
Fisioterapeuta Carlos Carvalho

P.: O Carlos acompanha em exclusivo os tenistas Jan Hajek e Lukas Rosol, actuais nº125 e nº44 no Ranking ATP. Quais são as suas principais tarefas ao longo do ano para preparar uma temporada? Como se desenrola o planeamento da temporada em si e dos objectivos?
A minha tarefa é muito simples, trabalhar na prevenção para evitar lesões, se as mesmas ocorrerem, reabilitar e potencializar a performance do atleta.
O planeamento da temporada é algo complexo porque nunca sabemos a 100% quais os torneios que iremos realizar.
Mas o fundamental é potencializar a condição física antes do torneio e durante o torneio, para isto, temos que ter em conta o tipo de competição que vai realizar (se é torneio ATP, Grand Slam ou Taça Davis), em que tipo de piso vai jogar (terra batida, relva ou rápido), e quais as possíveis condições climatéricas irá ter.
Assim, tendo em conta todas estas condições, realizamos um plano para potencializar todas as suas variantes.
Algumas das rotinas que realizo com eles, passam pelas mobilizações matinais, exercícios para "despertar o corpo", aquecimento antes do treino, treino no court/ginásio (força, velocidade, resistência, flexibilidade, propriocepção), estiramentos, banhos de contraste, hidroterapia, massagem desportiva, massagem com gelo, estes são alguns dos exemplos das actividades que realizo diariamente, além de ter o cuidado de preparar toda a sua dieta e hidratação.

P.: Qual o seu papel, e como se conjuga com os outros profissionais que acompanham este atleta?
Como assumo o papel de Fisioterapeuta e de Preparador Físico a minha responsabilidade é ainda maior, assim tenho de ter uma boa inter-relação com o seu treinador para podermos planificar todo o trabalho quer físico, quer tático. Deste modo tenho de ter em conta o trabalho que realiza no court, avaliar a sua condição física de modo a potenciar os seus valores quer em treinos no ginásio quer em treinos no court, onde para isso preciso também da opinião do treinador que é fundamental para assim melhorar a sua performance. Posto isto, temos que estar em contato permanente para que o nosso trabalho seja o melhor possível em prol do jogador.
P.: É o Carlos que os assiste durante o jogo? Como se gerem as expectativas de um jogador deste nível, e que tem certamente compromissos a cumprir, sem pôr em causa a sua integridade física? Já lhe aconteceu alguma situação de dúvida neste sentido?
Todos os jogadores que necessitam de assistência médica durante o jogo, a mesma é-lhes providenciada pelos serviços do ATP, nenhum elemento da sua equipa técnica o pode assistir durante o jogo. Todas as decisões que tomam durante o jogo são sempre com a opinião da assistência médica dos serviços do ATP. Felizmente, até à data, nenhum dos jogadores com que trabalhei teve que desistir devido a uma lesão. 
P.: Para terminar, como faz para conjugar esta vida profissional, que certamente o obriga a inúmeras viagens, com a vida pessoal? Como os atletas, haverá uma altura em que é tempo de pousar as sapatilhas?
Realmente não é algo fácil de conjugar uma vez que viajo cerca de 35 semanas por ano. Por um lado sinto-me um privilegiado porque tenho a possibilidade de viajar por todo o mundo e conhecer culturas diferentes. A nível profissional também é bom porque lido com bons profissionais da área onde tenho oportunidade de trocar conhecimentos, experiências e técnicas. Mas por outro lado, as saudades da família, amigos e namorada apertam e sentimos necessidade de estar mais próximos. Não sei quantos anos mais irei continuar por aqui, mas no futuro gostaria de trabalhar cá em Portugal e poder viajar algumas semanas durante o ano. Até lá esperamos por novos desafios.



Carlos Carvalho
Fisioterapeuta, Master em Osteopatia, frequência no curso de Ciências do Desporto
Acompanhou diversos tenistas profissionais, como Nicolay Davydenko, Michal Mertinak, Chantal Skamlova e Tommy Haas.
Actualmente acompanha em exclusivo os tenistas Lukas Rosol e Jan Hajek




quinta-feira, 6 de junho de 2013

O que esperar de uma Residência Sénior?

Entrevista com:
Dra. Cristiana Nascimento


P.: Mesmo em idades avançadas, a decisão de se mudar para uma residência geriátrica nunca é fácil. Um dos receios mais comuns é a falta de condições/acompanhamento nestes locais, pela imagem que gravamos, como sendo espaços de abandono de pessoas de idade. 
Sendo gestora das Residências Geriátricas Casa Maior, quais são, na sua opinião, as principais valências que um espaço destes deve proporcionar de forma a contrariar esse preconceito da nossa sociedade?

Efetivamente, esta é sempre uma decisão muito pesada para a família. Existe uma dualidade de sentimentos, por um lado pretende-se o bem-estar do idoso, mas por outro lado muitos são os familiares que se culpabilizam, e não conseguem aceitar o processo de institucionalização. No entanto, para que este sentimento seja ultrapassado, ou pelo menos minimizado é fundamental que efetivamente a residência geriátrica seja credível, disponha de todos os recursos quer humanos (tais como enfermagem, fisioterapia, gerontologia e médica) quer materiais. Sobretudo é fundamental, que essa instituição transmita confiança ao residente e aos seus familiares (estes são parte integrante do processo de adaptação do sénior).

P.: O que significa para si envelhecimento activo e como se conjuga este conceito com a vida numa residência geriátrica?

Ainda que existam diversas definições de envelhecimento, de uma forma simplista significa envelhecer ativamente física, cognitiva e socialmente. Por conseguinte, envelhecimento ativo pressupõe que a pessoa disponha e utilize todos os recursos para se manter ativa, através de exercício físico, de estimulação cognitiva, das saídas ao exterior, do contacto com a sua rede social de suporte (familiares e amigos). Objetiva-se assim manter mente sã em corpo são.

P.: Para as famílias e seniores que procuram um novo lar, com infraestruturas e serviços que se coadunem à sua condição de saúde, quais são os principais factores a ponderar no momento da decisão? 
Um fator fundamental é o familiar e o residente conhecerem as instalações, logo numa primeira visita, e solicitarem toda a informação necessária. É importante que tenham a certeza que se trata de uma residência com licença de utilização (ou seja devidamente legalizada) e com profissionais qualificados para o efeito. Assim, para o familiar e o sénior poderem tomar a decisão de institucionalização, têm que ter certezas se realmente a equipa de profissionais, bem como as infraestruturas correspondem às suas necessidades. Não menos importante, é obterem informações/referências do funcionamento da residência junto de outras Entidades ou individualidades.

P.: Para terminar, como vê o futuro das residências assistidas para seniores? Que mais poderá ser feito para que haja um acompanhamento cada vez mais personalizado e adaptado a cada residente?

Acreditamos que este é um setor que tem de sofrer grandes alterações, atualmente, as pessoas já são exigentes em relação às residências geriátricas, e tendencialmente esta exigência irá aumentar. Por conseguinte, cada vez mais estas residências têm que ter uma equipa de profissionais credíveis e qualificados no exercício das suas funções. Cada vez mais as instituições terão que se adaptar/ajustar às necessidades dos clientes e não o inverso. A qualidade terá que imperar, não somente no papel mas definitivamente no tratamento dos mais velhos, afinal estes sim, têm um estatuto que lhes permite ir mais além, se o futuro em termos de produtividade é dos mais novos, a fonte de sabedoria e conhecimento está seguramente nos mais velhos.
 


Entrevista com:

Dra. Cristiana Elisete Pinto do Nascimento
Função atual: Sócia/Diretora técnica do Grupo CASA MAIOR – Residências Geriátricas
Resumo curricular: Mestre em Gestão das Organizações, Ramo Gestão de Empresas; Licenciada em Gerontologia; Licenciada em Psicologia Organizacional


quarta-feira, 22 de maio de 2013

Fisioterapia no meio aquático

Entrevista com:
Fisioterapeuta Maria da Conceição Graça

P.: A maior parte das pessoas tem conhecimento da fisioterapia no meio aquático pelas classes de hidroterapia em grupo. Pode resumir-nos as diferenças entre estes dois conceitos e indicar algumas condições clínicas em que a fisioterapia no meio aquático tenha indicação terapêutica?

Existe equivalência nos dois termos, apenas que fisioterapia em meio aquático define o profissional que exerce a terapia aquática. E nesse sentido o diagnóstico clínico do utente deveria definir o profissional que faz a terapia.
No caso dos sintomas serem dor, disfunção motora ou músculo-esquelética, alterações reumatológicas ou sequelas neurológicas deveria-se encaminhar o utente para um fisioterapeuta. 

P.: Uma fonte de discórdia entre muitos profissionais de reabilitação é saber se a fisioterapia no meio aquático é benéfica ou não para casos de artrose dos membros inferiores. Terá o efeito “anti gravítico” da água vantagens no alívio dos sintomas de artrose da anca e joelho?

Os estudos científicos tem provado que o efeito da gravidade na cartilagem degenerada agravam o quadro, assim como os movimentos repetidos. Por outro lado, biomecânicamente está provado que o meio aquático tem um efeito de descarga articular que pode diminuir o desgaste articular no meio aquático e dada a variabilidade de movimento pela instabilidade do meio, só se pode afirmar que é um meio rico em estímulos para ativar e desencadear um reforço muscular e treino proprioceptivo . 

P.: Os problemas vasculares e de pele são por vezes um impedimento para a prática de atividades numa piscina aquecida. Em que condições clínicas é de todo contraindicada a fisioterapia em meio aquático?

A terapia aquática não tem contraindicações à exceção de feridas abertas, pela possibilidade de o seu portador adquirir uma infecção num meio rico em microbiologia variada. 
A questão está nas condições uniformes dos meios aquáticos, demasiado quentes e contaminados em piscinas terapêuticas e demasiado frios e desconfortáveis em piscinas desportivas. A verdade é que depende do objetivo terapêutico, no caso de terapia pelo movimento para condicionamento cardiovascular a temperatura deverá ser mais baixa (30º-31º), no caso de pessoas com problemas de contraturas, hipertonia que precisam relaxar e estão incapacitadas de exercícios vigorosos a temperatura deveria ser mais elevada (32º-34º). Sobre controlo de infecção, os avanços na engenharia já desenham piscinas com tratamentos à base de Ultravioletas que têm um controlo adequado à microbiologia do meio que, com outras medidas estratégicas, resultam em vantagens perfeitas para utentes e fisioterapeutas. Não nos esqueçamos que estes profissionais são sujeitos ao meio durante a imersão do seu utente.

P.: Pode dar-nos o exemplo de um caso clínico em que a fisioterapia em meio aquático tenha assumido um papel preponderante no processo de reabilitação?

No próximo dia 12 de junho haverá o 1º Seminário de Estudos de Caso em Terapia Aquática, que de certo validará intervenções baseadas na Evidência. No meu caso, como amante desta modalidade terapêutica, é através dos casos neurológicos e de geriatria que me elevo pelos resultados obtidos na promoção da saúde, bem-estar e qualidade de vida com impacto no seu condicionamento físico e prevenção de quedas.



Maria da Conceição Graça

Fisioterapeuta Especialista no Hospital Dr. Francisco Zagalo de Ovar
Mestre em Gerontologia na UA
Doutoranda de Fisioterapia na Fadeup 

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Cadeias musculares, RPG e SGA

O Dr. João Carvalho é Fisioterapeuta, diplomado em Osteopatia e docente convidado e monitor de estágio da ESS Alcoitão.
É monitor desde 1994 da Universidade Internacional Permanente de Terapias Manuais - França no curso de RPG, e desde 1997 é o único formador em Portugal de SGA da Universidade Internacional Permanente de Terapias Manuais - França.
Nesta entrevista falamos do conceito de cadeias musculares, e da aplicação da Reeducação Postural Global (RPG) e do Stretching Global Activo (SGA) em contexto clínico e desportivo.


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quarta-feira, 27 de março de 2013

Electrólise Percutânea Intratecidular (EPI), será o futuro da fisioterapia no desporto de elite?

O Dr. José Manuel Sanchéz é o criador da Técnica de Electrólise Percutânea Intratecidual (EPI®) aplicada ao aparelho locomotor e ilustre fisioterapeuta desportivo, cujo reconhecimento lhe permitiu implementar a técnica de EPI em clubes de futebol como o FC Porto, FC Inter de Milão, Manchester United FC, entre outros.
Veja em que consiste esta técnica e quais as suas principais aplicações nesta entrevista feita ao Dr. Sanchéz, com a colaboração da Master.pt.



terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Do desporto à saúde, já sabemos tudo?


Entrevista com:
Prof. Doutor Daniel Marinho

P.: Uma das suas áreas de investigação relaciona-se com métodos de melhoria da performance desportiva, nomeadamente na natação. Atualmente debate-se a questão das alterações fisiológicas decorrentes do excesso de treino, sobretudo nos jovens atletas, acarretando muitas vezes implicações para o seu normal desenvolvimento e saúde. Pode dar-nos a sua opinião sobre este tema?

Obrigado pela questão. Na minha opinião a prática desportiva é muito importante e tem vantagens muito grandes no desenvolvimento físico, mental e emocional de um jovem. Contudo, é preciso estar muito atento aos sinais de fadiga, ao aparecimento de lesões e alguma contraindicação que possa haver. Em qualquer dos casos, é minha opinião que um processo controlado e bem orientado tem mais vantagens do que desvantagens.

P.: A prática desportiva é inquestionavelmente um fator de desenvolvimento pessoal a vários níveis, sobretudo para as crianças e jovens. Que conselhos práticos pode dar aos pais que pretendem que os seus filhos pratiquem algum tipo de desporto? Desportos individuais ou coletivos, devem os pais deixar escolher ou apresentar opções aos filhos?

Tal como referi, a prática desportiva é essencial no desenvolvimento. A escolha da modalidade/variante deve ser algo definido entre os pais e os filhos, tendo em conta os gostos deles, grupo de amigos, e as condições existentes para essa prática. Fundamentalmente, as crianças não devem estar obrigadas a praticar algo, o que não  quer dizer que por vezes os pais não tenham que insistir ou levar a que a criança sinta essa vontade (uma questão de educação).

P.: Foi recentemente distinguido como Melhor investigador do Ano pela International Society of Swimming Coaching, sendo reconhecido o seu envolvimento direto, e da sua equipa, com atletas e o trabalho "fora do laboratório", o que entende que pode ser melhorado no panorama investigação em Portugal para agilizar o processo de aplicação do conhecimento científico à prática?

Excelente questão. Fundamentalmente é envolver as pessoas que estão no terreno. Tentar perceber de que forma a investigação pode ajudar os técnicos desportivos, perceber o que pode ser uma mais-valia para os técnicos e atletas. E depois fazer o trabalho de formação com esse técnicos, ajudando-os, se necessário, na aplicação desses dados no terreno.

P.: Para terminar, algum novo projeto de investigação nesta área que pensa merecer especial atenção? Ou sugestão de temas que seriam interessantes investigar no futuro?

Para mim em particular, quero continuar nesta área de investigação. Contudo, temos alguns projetos em andamento (outros em projeto apenas) nomeadamente da aplicação da dinâmica computacional de fluidos na natação e noutras atividades aquáticas (canoagem, remo, por exemplo). Para além disso, não só a questão do treino é importante. Temos alguns projetos sobre os efeitos de diferentes práticas desportivas, por exemplo, o efeito de aulas de hidroginástica, de diferentes programas de atividade (mais volume, mais intensidade, ...) na condição física.


Daniel Marinho

Professor na Universidade da Beira Interior
Licenciado em desporto e educação física pela UP
Doutorado em ciências do desporto pela UTAD, docente na universidade da beira interior. 
Treinador de natação.



sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Hábitos saudáveis são hábitos de sucesso?


Nesta entrevista o Professor José Soares fala sobre:

  •  Os benefícios do exercício físico regular e de uma alimentação saudável,
  •  As alterações fisiológicas que estes hábitos acarretam,
  •  A influência do exercício físico nas nossas capacidades cognitivas,
  •  Novas áreas de investigação sobre este tema.



Hábitos saudáveis são hábitos de sucesso? from fisioinforma on Vimeo.




José Soares 
Professor Catedrático da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto
Responsável pelo Laboratório de Fisiologia da FADE-UP
Docente nos cursos de Pós-Graduação de Medicina Desportiva e de Geriatria da Faculdade de Medicina da UP

Responsável pela Consulta de Gestão do Peso da Clínica Médica de Exercício do Porto
Responsável pela I&D da Teamwork Consultores

Tem 4 livros publicados e mais de 50 artigos publicados em revistas internacionais “peer-reviewed”.


segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

A sexualidade e a Lesão Medular: o que queremos saber e temos receio de perguntar!

Entrevista com:
Dra. Maria Ribeiro da Cunha

P.: Existem vários tipos de sexualidade, e a de um lesionado medular será necessariamente diferente. Isto é muitas vezes um factor de insegurança, tanto para o lesionado, como para a(o) sua(seu) companheira(o). Qual entende que seja a melhor abordagem à questão? Para a Dra. que realiza trabalho nesta área, existe algum profissional de saúde mais vocacionado para este tipo de questões?

Em 2002 a OMS definiu a sexualidade como sendo: “um aspecto central do ser humano ao longo da vida, englobando o sexo, identificação do género e seu papel, orientação sexual, erotismo, prazer, intimidade e reprodução”.

A lesão medular tem um impacto muito significativo na diminuição do desejo sexual por algumas das suas consequências físicas e psicológicas, como sendo: a dependência de 3ª pessoa, a inversão dos papéis nas relações pessoais, a dor, a espasticidade, a limitação da mobilidade, as deformidades físicas, o medo de descontrolo esfincteriano, a depressão, entre outras.

Assim, a questão da função sexual, entendida pelos lesionados medulares como uma das suas principais preocupações na fase subaguda e crónica da lesão, deverá ser abordada no contexto da sua reabilitação integral e abrangente, de uma forma natural e, como em todas as outras vertentes, recorrendo a uma equipa pluriprofissional.

Além da explicação daquilo que acontece em termos fisiopatológicos na lesão medular, com repercussão na função sexual, deverá ainda ser aconselhado tentar uma mudança na conceptualização da sexualidade, no sentido de uma menor “genitalização” do acto sexual, procurando outras formas e manifestações de relação com a(o) parceira(o), de prazer e de satisfação.

O modelo PLISSIT sugere o profissional com competências mais adequadas à abordagem desta área:



Existem ainda programas de reabilitação psicossexual muito válidos. Têm geralmente a duração de seis-oito semanas, com sessões de grupo (misto) semanais, com duração de uma hora, sendo encorajada a participação dos doentes e respectivo(a)s companheiro(a)s.
Nestas sessões, são geralmente abordados diferentes temas como por exemplo: a resposta sexual humana e factores que podem afectar essa resposta, efeitos da lesão medular sobre a sexualidade, sexualidade e incontinência, e sexualidade, casamento e divórcio, procurando-se aqui incentivar a partilha de experiências e a interacção dos doentes.



P.: A lesão medular implica limitações físicas, em que se incluem a função sexual. Obviamente, a gravidade desta disfunção irá variar com o tipo de lesão. Pode traçar-nos um esquema das principais repercussões nesta vertente, distinguindo o que pode acontecer no caso do homem e no caso da mulher?

De uma forma genérica, e para lesões completas, podemos resumir as alterações mais frequentes segundo o quadro seguinte:


 Nas lesões incompletas, os achados são variáveis, dependendo do grau de preservação medular.



P.: Para as pessoas nesta condição que pensam em ter filhos, as dúvidas são muitas e frequentemente pouco esclarecidas. A nível físico, quais os condicionamentos de um lesionado medular para a maternidade ou paternidade? 

Geralmente, lesionados medulares do género masculino apresentam subfertilidade devido a alterações ejaculatórias e patologia seminal. Muitos doentes são jovens e desejam a paternidade biológica. Nestes casos, deve ser avaliada a possibilidade de ejaculação por métodos naturais (possível em poucos casos), ou utilizando diferentes métodos de obtenção seminal (vibroestimulador, electroestimulador anal). Quando é necessário melhorar qualidade do sémen, pode ser implementado um protocolo para diminuir a estase do fluído prostático, através de ejaculações regulares (aproximadamente uma extracção por semana) com o auxílio de electroejaculadores ou vibradores penianos.

Realiza-se também o seminograma com avaliação do volume seminal, pH, cor e viscosidade, vitalidade e concentração dos espermatozóides. Dependendo dos resultados, os doentes podem ser ensinados a realizar auto-inseminação em casa (com colheita de sémen por métodos naturais ou com um vibroestimulador pessoal e posterior introdução intra-uterina com seringa). Caso não se obtenha um resultado positivo, é tentada uma inseminação, utilizando técnicas de selecção espermática.


Nas situações em que nenhum dos métodos atrás referidos é eficaz, os doentes são encaminhados para uma instituição especializada para realização de punção-aspiração testicular com agulha fina e técnicas de fertilização por microinjeção espermática.

No  caso das mulheres, há que esclarecer que a fertilidade, após um período de amenorreia inicial pós-lesão (4, 6 ou 8 meses), não será geralmente afectada, pelo que precisam de usar um método contraceptivo (de preferência preservativo lubrificado) se não quiserem engravidar. Os anticoncepcionais orais estão desaconselhados pelo risco aumentado de trombose venosa profunda ou tromboembolismo pulmonar. Além disso, apesar de não ser obviamente desencorajado, devem referir-se os riscos em que as lesionadas medulares podem incorrer com uma gravidez, como por exemplo: maior probabilidade de úlceras de pressão, insuficiência venosa, tromboembolismo, infecções urinárias, aumento da espasticidade ou diminuição da função pulmonar.


P.: Para terminar, tem conhecimento de algum tipo de produto de apoio nesta área que possa ser útil? Existe algum grupo de apoio que se debruce sobre este tema?

A medicação oral é a primeira linha no tratamento da disfunção sexual masculina pós-lesão medular, seguida da medicação intracavernosa.
Muito raramente (em casos refractários à medicação ou se esta está contra-indicada), podem ser utilizados anéis constritores ou sistema de vácuo para obter uma erecção suficiente para a penetração. O último recurso será o tratamento cirúrgico, com colocação de prótese peniana ou de estimulador de raízes sagradas.

Não tenho conhecimento que haja actualmente algum grupo de apoio especificamente neste área em Portugal, além das existentes consultas de Reabilitação Sexual em Serviços de Medicina Física e de Reabilitação (infelizmente ainda escassas) e algumas associações/grupos de lesionados medulares que divulgam informação de diversos temas. Poderá ser uma boa ideia para um projecto futuro!

Poderá ver outro artigo sobre o tema Aqui!



Dra. Maria Ribeiro da Cunha
Interna de Formação Específica em Medicina Física e de Reabilitação no Centro de Medicina de Reabilitação da Região Centro - Rovisco Pais (a aguardar Prova de Avaliação final).

Licenciatura em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra

Membro da Ordem dos Médicos Portugueses, Sociedade Portuguesa de Medicina Física e de Reabilitação, International Society of Physical and Rehabilitation Medicine, European Society of Physical and Rehabilitation Medicine, Coordenadora da Secção de Internos da Sociedade Portuguesa de Medicina Física e de Reabilitação e Membro do Committee of Residents of the Mediterranean Forum of Physical and Rehabilitation Medicine

Já publicou:
- Artigo de revisão com o título:A influência das prostatites crónicas do lesionado medular nas características do líquido seminal: dúvidas e verdades comprovadas”; Revista Internacional de Andrologia, 2012, 10: 147‑151.
- Artigo original com o título: “Protocolo de encerramento de traqueotomia em internamento em Reabilitação”; Revista da Sociedade Portuguesa de Medicina Física e de Reabilitação, 2012, 22: 28-35.
- Autora do capítulo: “A Medicina Física e de Reabilitação no Serviço de Cirurgia Cardiotorácica” no livro “Procedimentos em Cirurgia Cardiotorácica”, Lidel edições técnicas, Lda, Novembro de 2009; pp. 107-114