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terça-feira, 22 de outubro de 2013

Assistência e adaptação da casa de uma pessoa com Distrofia Muscular de Duchenne - estudo de caso clínico

A implementação de um plano de cuidados para um indivíduo com distrofia muscular de Duchenne (DMD) requer o uso de tecnologia assistiva para permitir a continuidade da independência em mobilidade e acessibilidade à medida que a doença avança.

O "Guide for Physical Therapy Practice”, desenvolvido pela APTA, é uma ferramenta para auxiliar o profissional de fisioterapia pediátrica na tomada de decisões sobre o plano de cuidados. Nas fases iniciais da DMD será mais apropriado o padrão para a prática musculoesquelética "desempenho muscular prejudicado". No entanto, com o avanço dessa fraqueza, dá-se uma mudança gradual para o padrão cardiovascular/pulmonar, especificamente o padrão de "deficiente ventilação e respiração/troca gasosa associada a disfunção ou falha ventilatória".

Dentro de cada padrão de prática existem componentes do exame de fisioterapia, e embora a perda progressiva da força muscular e diminuição da flexibilidade sejam características marcantes da DMD e o foco de grande atenção pelos profissionais de saúde, os seguintes três componentes são o foco principal deste estudo de caso:
  • Meio ambiente
  • Ambiente escolar/trabalho/lazer
  • Dispositivos de assistência/adaptativos


Apresentação do caso clínico


  • Craig é um jovem de 26 anos, diagnosticado por um neurologista com DMD em 1980, com 5 anos na altura.
  • O diagnóstico do médico foi baseado nos resultados do exame clínico e na presença de um nível elevado de creatina fosfoquinase (CPK) (100 vezes maior do que o normal). A família não quis o estudo eletromiográfico e os testes genéticos não tinham sentido em 1980, pois o defeito genético associado à DMD (ausência da proteína distrofina) ainda estava sob investigação.
  • O resultado das avaliações clínicas revelou um padrão de fraqueza muscular proximal, pseudo-hipertrofia da musculatura posterior da perna, que incluiu uma consistência de borracha à palpação, incapacidade de levantar-se do chão sem usar as mãos para apoio nas coxas (sinal de Gower) e hiporreflexia.
  • A única intervenção cirúrgica de Craig incluiu uma fusão espinhal, aos 16 anos, para tratamento da sua escoliose.


Plano de assistência e adaptativo


Quando atingiu os 8 anos Craig teve de começar a utilizar órteses noturnas para controlar a progressão das contraturas na parte posterior das pernas. Nessa altura tinha começando a ter dificuldade em subir escadas, exigindo o uso de um corrimão.

As fotografias aos 9 anos, mostram as contraturas assimétricas no tornozelo, a pseudo-hipertrofia da musculatura posterior da perna, o excesso de lordose lombar secundária a fraqueza abdominal e dos extensores da anca, e a omoplata alada devido à fraqueza da musculatura da cintura escapular.


O uso de órteses para controlar a posição do tornozelo durante a marcha não foi bem-sucedida com o Craig, assim como é o caso na maioria das crianças com DMD, pois a capacidade de se equilibrarem pelo uso da musculatura distal é prejudicada pela imobilização com as órteses.

Aos 12 anos, Craig começou a usar uma scooter de três rodas para longas distâncias, e aos 14 anos, começou a usa-la em tempo integral. Aos 12 anos, a família também adquiriu uma cadeira de rodas manual, porque a casa não era acessível para a scooter.
Craig só era capaz de usar a cadeira de rodas manual para mobilidade em superfícies de chão liso, tais como linóleo, por causa do grau de fraqueza muscular da cintura escapular.

Craig e a família tomaram a decisão de não iniciar um programa de cirurgias mais a utilização de ortoses pé-tornozelo-joelho para prolongar o tempo de marcha útil e partiram imediatamente para a scooter e cadeira de rodas, utilizando um standing-frame para treinar a posição vertical.

Aos 14 anos, ele já não era capaz de se transferir a partir do chão para ficar em pé ou de uma posição sentada para em pé sem assistência total. Também já não era capaz de subir escadas. As suas contraturas em flexão plantar tinham progredido para 20º, e, mais importante, as contraturas em flexão da anca ultrapassavam os 20º, não alcançando uma posição passiva de estabilidade em pé.

O acesso a casa dos pais de Craig teve de ser adaptado para cadeira de rodas. A família optou por instalar um elevador para acesso a partir da cave ao rés-do-chão e uma rampa na parte traseira da casa, como demonstrado nas imagens.




Como o seu controlo de tronco diminuiu, foi comprada uma cadeira de rodas motorizada quando ele tinha 18 anos, o que levou a família a adquirir também uma carrinha com elevador incorporado, como está na imagem.













A família instalou uma casa de banho para deficientes motores na cave da casa e instalou um elevador para o acesso à banheira e WC, como na imagem.








A imagem seguinte mostra a cadeira de rodas motorizada de Craig. As suas especificações incluem um sistema de báscula e verticalização, apoios de antebraço, joystick padrão, encosto de cabeça Otto Bock e almofada em material viscoelástico. A cadeira de rodas manual ficou para uso durante os reparos necessários da cadeira de rodas motorizada ou nas atividades em ambientes não acessíveis à cadeira de rodas motorizada.







Equipamento adicional utilizado atualmente inclui um ventilador de pressão positiva bifásica (BiPAP) e um espirómetro de incentivo. O BiPAP começou a ser utilizado quando a capacidade vital forçada de Craig tinha diminuído para 17% e o teste pulmonar demonstrou alcalose metabólica. O espirómetro é usado como parte do seu programa de exercícios respiratórios.












Conclusão


Embora a gestão física da DMD seja um aspecto importante do plano de cuidados de fisioterapia, as questões de acessibilidade e uso de tecnologia assistiva para manter a independência são, indiscutivelmente, de maior importância. Nenhum tratamento pode prevenir a progressão da doença, mas a deficiência pode ser minimizada pela utilização do equipamento adequado.

Conforme a gravidade da DMD de Craig progrediu, a tecnologia foi cada vez mais um apoio necessário para manter a sua independência e mobilidade, facilitando a assistência do cuidador com as atividades da vida diária.

O fisioterapeuta deve ser integralmente envolvido na equipa de saúde para identificar e documentar a progressão dos sinais clínicos. Com DMD o conhecimento do prognóstico permite ao fisioterapeuta, família e indivíduo planear as necessidades futuras, tais como equipamentos e financiamento.

Este processo pode ser particularmente stressante para as famílias, porque é um lembrete da natureza progressiva da doença e a evasão ou a negação é uma tendência natural. No entanto o atraso em avançar nas mudanças necessárias pode mais tarde criar complicações.

Ajudar a família com as opções disponíveis de equipamentos, documentação necessária e coordenação de serviços são tarefas importantes do fisioterapeuta na realização de um plano abrangente de cuidados.


O resultado para Craig é um ambiente familiar com tecnologia assistiva que atenda as suas necessidades para que ele possa concentrar o seu tempo nas suas habilidades e não na sua deficiência.



Stuberg W. Home accessibility and adaptive equipment in duchenne muscular dystrophy: a case report. Pediatr Phys Ther. 2001 Winter;13(4):169-74.



sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Distrofia Muscular de Duchenne

A distrofia muscular de Duchenne (DMD) é uma condição genética que afeta os músculos, apenas nas crianças do sexo masculino, causando fraqueza muscular. É uma doença grave, não perceptível no momento do nascimento, mesmo que a criança nasça com o gene que a provoca, e que se desenvolve gradualmente.

A DMD é uma das mais de 20 tipos de distrofia muscular. Todas as distrofias musculares são causadas por defeitos em genes e causam fraqueza muscular progressiva. O tipo Duchenne provoca defeito numa única proteína importante para as fibras musculares, a distrofina.

A ausência de distrofina impede o cálcio de entrar na célula, o que afecta a sinalização desta, por consequência, a água dentro da célula entra na mitocondria causando o rebentamento da célula. Num processo complexo em cascata, que envolve várias vias, o aumento do stress oxidativo nas células lesa o sarcolema, resultando na morte das fibras musculares que são substituídas por tecido conjuntivo.



A DMD é uma doença progressiva que eventualmente afeta todos os músculos voluntários e envolve o coração e os músculos respiratórios em fases posteriores. A expectativa de vida está estimada em cerca de 25 anos, mas varia de paciente para paciente.

Apresentação Clínica/Sinais e sintomas


A fraqueza muscular dá-se principalmente nos músculos proximais do tronco, ancas e ombros. Isto significa que os movimentos finos, que utilizam as mãos e os dedos, são menos afetados do que os movimentos como o andar.

Os sintomas geralmente começam entre 1-3 anos, e podem incluir:
  • Dificuldade em andar, correr, saltar e subir escadas. Padrão de marcha característico. O rapaz pode começar a andar mais tardiamente (embora muitas crianças sem DMD também comecem a andar mais tarde).
  • Quando pegar a criança, pode sentir como se ele “desliza através de suas mãos”, devido à frouxidão dos músculos do tronco e do ombro.
  • Os músculos das pernas podem parecer volumosos, embora não sejam fortes.
  • Com o avançar da idade a criança pode usar as mãos para ajudar a levantar-se, como se estivesse "a subir pelas pernas". Chamado de sinal de Gower.
  • Alguns meninos com DMD também têm uma dificuldade de aprendizagem, normalmente não severo.
  • Por vezes, um atraso no desenvolvimento será o primeiro sinal de DMD. No entanto, a DMD é apenas uma das possíveis causas de atraso no desenvolvimento - há muitas outras causas não relacionadas com DMD.


Tratamento


Actualmente não há cura para a DMD. Equipas de profissionais de saúde multidisciplinares e proactivas, assim como o acesso a ventilação não-invasiva, têm permitido uma melhor taxa de sobrevida na idade adulta.

Na idade pré-escolar
Normalmente, nesta fase, a criança vai estar bem e não precisa de muito tratamento. O que normalmente irá ser oferecido:
  • Informações sobre DMD e grupos de apoio.
  • Encaminhamento para uma equipa de especialistas (por exemplo, um pediatra ou neurologista, fisioterapeuta e uma enfermeira especialista) para monitorizar a saúde da criança.
  • Conselhos sobre o nível adequado de exercício físico.
  • Aconselhamento genético para a família.




Idade 5-8 anos
Nesta idade, algum apoio pode ser necessário para as pernas e tornozelos. Por exemplo, usar talas para os tornozelos durante a noite ou uma órtese joelho-tornozelo-pé. Não há nenhuma evidência de haver vantagem significativa de qualquer intervenção para aumentar a amplitude de movimento do tornozelo.
O tratamento com corticosteróides pode ajudar a manter a força muscular da criança. Isto envolve tomar a medicação, como a prednisolona em tratamento a longo prazo, quer em contínuo ou em períodos repetidos.

8 anos - final da adolescência
Em algum momento após a idade de 8 anos, os músculos das pernas tornar-se-ão significativamente mais fracos. Caminhar fica gradualmente mais difícil, e uma cadeira de rodas será necessária. A idade em que isso acontece varia de pessoa para pessoa. Muitas vezes, é em torno da idade de 9-11 anos, embora com tratamento com corticosteróides, alguns meninos podem andar até um pouco mais tarde.
Depois que a criança começa a precisar da cadeira de rodas as complicações tendem a começar, por isso é importante monitorizar a saúde do menino e tratar qualquer complicação precoce.
Apoio e equipamento prático será necessário nesta fase, por exemplo, adaptações para a casa e a escola da criança.
Aconselhamento e apoio emocional para a criança e a família podem ser úteis.

Adolescentes - vinte anos
Nesta fase, a fraqueza muscular torna-se mais problemática. São necessárias crescentes ajudas e adaptações. Complicações, como infecções respiratórias tendem a aumentar, é necessária maior monitorização e tratamento médicos.

Fisioterapia
O seu objetivo é:
  • Minimizar o desenvolvimento de contraturas e deformidades através de um programa de exercícios e alongamentos
  • Monitorizar a função respiratória e aconselhar sobre exercícios respiratórios e métodos de eliminação de secreções
  • Programar sessões semanais-mensais de massagem para aliviar a dor presente.

Complicações mais frequentes


Osteoporose: devido à falta de mobilidade e também a tratamento com corticosteróides. Cálcio e vitamina D podem ajudar. Por vezes, um exame de sangue para verificar os níveis de vitamina D é aconselhável, e suplementos de vitamina D podem ser receitados.
Complicações articulares e da coluna vertebral: rigidez, sobretudo da articulação do tornozelo e no tendão de Aquiles. Pode ser tratado com aparelhos ortopédicos ou por liberação cirúrgica do tendão.

Escoliose: pode ocorrer devido a fraqueza muscular. Geralmente acontece depois de a criança começar a usar cadeira de rodas. Um colete de apoio ou cirurgia da coluna vertebral podem melhorar a função e a qualidade de vida.

Nutrição e digestão: algumas crianças com DMD são propensas ao excesso de peso, especialmente se fizeram com o tratamento com corticosteróides. Outros podem estar abaixo do peso, devido à perda de massa muscular. Aconselhamento dietético pode ser útil nestas situações. Doentes com DMD podem ter prisão de ventre devido à falta de mobilidade. Esta pode ser tratada com laxantes e uma dieta rica em fibras.
Nos estágios posteriores da DMD pode haver dificuldade na mastigação e deglutição de alimentos. Pode ser necessária avaliação e aconselhamento nutricional ou suplementos. Se o problema for grave, então pode ser necessária uma sonda nasogastrica.

Complicações respiratórias: Durante a adolescência , os músculos respiratórios enfraquecem, causando respiração superficial e um mecanismo de tosse menos eficaz que pode levar a infecções pulmonares. Técnicas de desobstrução e ventilação não-invasiva podem ajudar.
Assim que a fraqueza muscular começa a ser significativa os pacientes com DMD devem começar a fazer testes de função pulmonar regularmente. Os sintomas a estar atento são cansaço, irritabilidade, dores de cabeça pela manhã, vigília nocturna e sonhos vívidos.

Complicações Cardíacas: cardiomiopatias. Os possíveis sintomas são cansaço, inchaço nas pernas, falta de ar ou um batimento cardíaco irregular. Podem ser debeladas se for iniciado tratamento medicamentoso precocemente, antes que os sintomas sejam notados. Devem ser realizados ECG e ecocardiogramas regulares, desde a infância.

Veja aqui um estudo de caso clínico de um paciente com esta patologia.


Kliegman RM, Behrman RE, Jenson HB, Stanton BF. Nelson Textbook of Pediatrics. 19th ed. Philadelphia, Saunders Elsevier; 2007:chap 608.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Alterações no padrão de marcha

Um padrão alterado de marcha pode resultar da lesão em vários sistemas:
  • Sistema nervoso central (AVC, Parkinson, esclerose múltipla, ...)
  • Sistema nervoso periférico (síndrome do piramidal, pé pendente, ...)
  • Sistema muscular (rutura muscular, rutura tendinosa, fraqueza muscular por desuso, ...)
  • Sistema osteo-articular (fraturas, artrose nos membros inferiores e coluna, limitação articular, ...)

Tipos de marcha associados a patologias:


Alteração no ataque do calcanhar ao solo
Pode estar associada a:
Esporão do calcâneo
Fasceíte plantar
Entorse do tornozelo



Fraqueza muscular do quadricípite
Pode estar associada a:
Poliomielite
Rutura do quadricípite
Artrose da anca




Marcha de "Foot Splap"
Pode estar associada a:
Poliomielite
Pé pendente




Marcha com recurvatum do joelho
Pode estar associada a:
Laxidez ligamentar na face posterior do joelho
Síndrome de dor patelo-femoral
Desequilíbrio entre a musculatura anterior e posterior da coxa



Marcha de Trendelenburg
Pode estar associada a:
Sindrome do piramidal
Artrose da anca
Doença de Legg-Calvé-Perthes
Poliomielite



Hemiparésia espástica
Pode estar associada a:
Acidente Vascular Cerebral (AVC)




Marcha de Duchenne
Pode estar associada a:
Distrofia muscular de Duchenne
Doença de Legg-Calvé-Perthes




Ataxia
Pode estar associada a:
Esclerose múltipla
Acidente Vascular Cerebral (AVC)
Paralisia cerebral



Parkinson



Diplegia espástica
Pode estar associada a:
Paralisia cerebral