quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Fratura de stresse completamente deslocada da diáfise femoral num atleta de meia-idade - estudo de caso clínico

Fraturas de stresse do membro inferior são uma lesão comum e podem representar até 10% de todas as lesões relacionadas com desporto. A maior incidência é encontrada entre os participantes em determinados desportos, como corrida de longa distância, que envolve alta carga repetitiva.

Esta carga repetitiva, sem tempo adequado para adaptação, pode levar a uma acumulação de microfracturas que excede a capacidade de remodelação do osso. Fraturas de stresse do osso tibial são a fratura mais comum no membro inferior e representam 26 a 49% de todas as fraturas de stresse.

As fraturas de esforço do fémur são raras e ocorrem com maior frequência no colo do fémur, representando 1 a 7% de todas as fraturas de stresse.

Fraturas de stresse relacionadas com a atividade têm sido relatadas principalmente entre os grupos etários mais jovens, que participam de desportos de resistência como corridas de longa distância.

Como resultado do recente aumento na participação de pessoas acima dos 40 anos de idade, os clínicos devem preparar-se para encontrar mais fracturas de stresse relacionadas com a atividade em pacientes de meia-idade.


Apresentação de caso clínico


O paciente, de 43 anos, é um triatleta masculino, caucasiano, que compete no nível nacional na categoria de masters.

O paciente foi admitido no centro de trauma com uma fratura da diáfise femoral deslocada do lado direito. A fratura ocorreu durante o campeonato nacional dinamarquês na distância de ½ Ironman (1.9 km de natação, 90 km de ciclismo e 21.1 km de corrida).

No momento da fratura, restavam apenas 1,1 km da corrida. A fratura ocorreu de repente durante o exercício. As sessões anteriores de ciclismo e natação foram concluídas sem dor ou quaisquer outros sintomas.

No início da corrida ele manteve um ritmo de 3:45 min/km. Após os primeiros 6 a 7 km o paciente teve uma frequência cardíaca invulgarmente alta (180 bpm). 
Durante os últimos 6 a 7 km antes da fratura o ritmo caiu para um inesperado 4:20 e 4:30 min/km e sua frequência cardíaca aumentou para 185 bpm.
Neste momento ainda não tinha sentido nenhuma dor na coxa direita, mas ficou surpreso por não conseguir manter o esperado 3:45 min/km.

Com 1,1 km restantes antes do final da corrida, o paciente relatou que sentiu como se alguém lhe tivesse dado um chuto na coxa direita e depois colapsou devido à falta de apoio na perna direita.

O paciente sofreu uma fratura fechada da diáfise femoral. A fratura foi tratada com uma haste intramedular fixada com parafusos de bloqueio distal e proximal.

O paciente não tinha história de doença e estava em forma e bem. Era não-fumador e não tinha história familiar de distúrbios do tecido conjuntivo.

Posteriormente o paciente relatou que os seus sintomas se desenvolveram gradualmente no último mês antes da fratura com dor localizada anterior à coxa direita. A dor ocorria principalmente durante a corrida e desaparecia em tarefas de descarga ou em descanso.

O paciente interpretou os sintomas como lesões musculares locais. Um exame clínico foi realizado pelo fisioterapeuta e o paciente relatou que o fisioterapeuta concluiu que os sintomas eram de uma simples lesão muscular no quadríceps.

Não foram realizados exames radiológicos ou exames adicionais.
Os sintomas foram inicialmente tratados com tratamento térmico e massagem nos tecidos moles e uma diminuição na distância e intensidade de treino.

Volumes de treino pré-fractura de stress da diáfise do fémur
Um exame físico completo, incluindo avaliação da dor, testes clínicos e a quantidade e intensidade de treino é importante se houver suspeita de uma fratura de stresse.




Essa avaliação, em combinação com imagens radiológicas e atenção à idade do paciente, é importante para o diagnóstico precoce e pode ajudar a prevenir fraturas de stresse deslocadas.


Larsen PElsoe RRathleff MSA case report of a completely displaced stress fracture of the femoral shaft in a middle-aged male athlete - A precursor of things to come? Phys Ther Sport. 2016 May;19:23-7.

domingo, 27 de novembro de 2016

Plano de exercícios para osteoartrose do ombro

Aqui estão alguns exemplos de exercícios de reabilitação típicos para osteoartrose do ombro.
Comece cada exercício lentamente. Se começar a ter dor interrompa o plano.
O seu médico ou fisioterapeuta irão dizer-lhe quando pode começar estes exercícios e quais deles irão funcionar melhor para si.
Faça Download do pdf para impressão, já com a descrição escrita dos exercícios.


1. Flexão/extensão dos ombro











2.       Rotação do ombro











      
     3.  Rotação interna do ombro

4. Adução das omoplatas


5. Remada resistida 


6. Fortalecimento dos rotadores externos


7. Fortalecimento dos rotadores internos


8. Movimentos pendulares














Os cuidados de acompanhamento são uma parte fundamental do seu tratamento e segurança. Não deixe de comparecer a todos os tratamentos de fisioterapia agendados.

Faça Download do pdf para impressão, já com a descrição escrita dos exercícios.

sábado, 26 de novembro de 2016

Estudo anatómico do Ligamento Cruzado Anterior

A reconstrução do ligamento cruzado anterior (LCA) é um dos procedimentos ortopédicos mais comuns nos dias de hoje, e tem como principais objectivos restabelecer a função do joelho e prevenir futuras lesões meniscais e cartilagíneas.

Joelho de feto com 16 semanas. LFC: côndilo femoral lateral;
LM: menisco lateral; PL: feixe postero-lateral do LCA;
AM: feixe antero-medial do LCA;
MFC: côndilo femoral medial; MM: menisco medial
O LCA é uma estrutura intra-articular, extra-sinovial, envolvida por 2 camadas sinoviais. Este ligamento é composto por numerosos fascículos de tecido conjuntivo denso predominantemente composto por colagénio tipo I.

Embora actualmente seja amplamente aceite que o LCA é composto por 2 feixes, há uma quantidade considerável de variação quanto ao tamanho relativo dos feixes antero-medial (AM) e postero-lateral (PL), dependendo do tipo de estudo.

O LCA tem origem na superfície medial do côndilo femoral lateral e segue um curso oblíquo dentro da articulação do joelho, indo de uma posição lateral e posterior para uma posição medial e anterior antes de se inserir numa ampla área central do prato tibial.

O comprimento intra-articular médio total do ligamento é de aproximadamente 32 mm (intervalo 22-41 mm), um comprimento que pode variar dependendo da posição do joelho.

O comprimento de LCA é o mais curto em 900 de flexão e pode aumentar em 18,8% durante a extensão sem carga.
A aplicação de uma carga anterior ou rotacional combinada pode aumentar o comprimento do LCA durante a extensão em quase 5%.

A área transversal do ligamento varia ao longo do seu comprimento, com uma secção na zona média a poder ter aproximadamente 44 mm2, enquanto nos locais de origem e de inserção do ligamento pode atingir 3 vezes essa área.
Notavelmente, este fenómeno anatómico faz com que o istmo seja menor que a metade da área dos locais de inserção, fato que deve ser reconhecido durante a reconstrução porque a área de secção transversal ligamentar pode diretamente desempenhar um papel na absorção de forças cinemáticas na articulação do joelho.

O LCA compreende os feixes AM e PL, assim designados com base nos locais de inserção relativos na tíbia. Ambos os feixes podem ser observados artroscopicamente, particularmente com o joelho mantido entre 900 e 1200 De flexão. 
Estudos anatómicos têm caracterizado as propriedades individuais dos feixes AM e PL. Em particular, o feixe AM tem aproximadamente 38 mm de comprimento, enquanto o feixe PL tem aproximadamente 17,8 mm de comprimento. Apesar destas diferenças, os feixes AM e PL têm diâmetros transversais semelhantes.

Os feixes AM e PL mudam de alinhamento uns com os outros à medida que o joelho se move da extensão para a flexão:
  • Os locais de inserção femoral estão orientados verticalmente quando o joelho está totalmente estendido e, consequentemente, os 2 feixes LCA estão orientados em paralelo.
  • Quando o joelho se move para 900 de flexão, o local de inserção do feixe AM no fémur roda posterior e inferiormente, em contraste com a inserção do feixe PL, que roda anterior e superiormente.



Estas alterações fazem com que os 2 feixes se cruzem um em torno do outro. Quando o joelho é flexionado, a inserção femoral do feixe PL é anterior ao feixe AM. Este padrão de cruzamento e os diferentes comprimentos de cada feixe têm implicações para o padrão de tensão do ligamento em si e de cada feixe individual.

Finalmente, para avaliar a anatomia do LCA, a ressonância magnética (RM) é a técnica de imagem mais confiável. As RMs podem visualizar os 2 feixes no plano sagital e em orientação paralela com o joelho estendido, além de mostrar o feixe de PL no plano coronal.


Irarrázaval SAlbers MChao TFu FHGross, Arthroscopic, and Radiographic Anatomies of the Anterior Cruciate Ligament: Foundations for Anterior Cruciate Ligament Surgery. Clin Sports Med. 2017 Jan;36(1):9-23.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Variações na Inervação da Cabeça Longa do Tríceps braquial: investigação em cadáver

Embora os principais livros de anatomia não descrevam outra inervação para a cabeça longa do tríceps que não seja o nervo radial, em alguns estudos de cadáveres ocorreram casos em que o ramo motor da cabeça longa do tríceps surgia do nervo axilar.

Para além disso os cenários clínicos de lesão do nervo axilar com disfunção inesperada do tríceps braquial suportam esses estudos.

O nervo radial tem origem no cordão posterior do plexo braquial, na bifurcação com o nervo axilar. Este nervo transporta as fibras nervosas das raízes de C5 a T1, enquanto o nervo axilar transporta fibras de raízes nervosas predominantemente de C5 e C6.

O nervo axilar é conhecido por ser o suprimento motor apenas para os músculos redondo menor e deltóide.
O redondo menor, com origem na escápula e inserido no úmero, forma a borda superior do espaço quadrangular - um marco anatómico e espaço implicado em algumas síndromes de disfunção do ombro.

A borda do úmero forma a borda lateral do espaço quadrangular, o músculo redondo maior forma a borda inferior e a cabeça longa do tríceps forma a borda medial. O espaço quadrangular é utilizado como marco para identificar a artéria umeral circunflexa posterior e o nervo axilar após a saída da axila.

Depois de atravessar o espaço quadrangular, o nervo axilar pode dividir-se em ramos anterior e posterior, se ainda não o tiver feito. O curso exato do nervo axilar após sair do espaço quadrilateral provou ser bastante variável.


Neste estudo, 8 dos 22 ombros dissecados tinham inervação exclusiva pelo nervo radial para a cabeça longa do tríceps, padrão de inervação clássico. Entretanto, 14 dos 22 espécimes apresentaram padrões nervosos diferentes do padrão clássico. Dos padrões “não-clássicos”, 11 revelaram inervação dupla (axilar e radial) e três tinham apenas enervação axilar.


Ao analisar os dois ombros de 10 cadáveres, verificaram que 3 tinham inervação dupla bilateralmente, 5 tinham inervação dupla de um lado e inervação radial do outro, e 1 tinha enervação radial em um lado e axilar no lado oposto, e apenas 1 cadáver tinha inervação radial bilateral.


Erhardt AJFutterman BVariations in the Innervation of the Long Head of the Triceps Brachii: A Cadaveric Investigation. Clin Orthop Relat Res. 2016 Nov 9. 

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Resolução de hérnia lombar sem cirurgia – achados imagiológicos


Uma mulher de 29 anos apresentou-se na consulta de coluna vertebral com dor irradiada pela perna direita, acompanhada de parestesia. Não se observavam sintomas intestinais ou na bexiga.

A Ressonância magnética (RM) da coluna lombar revelou hérnia discal lombar, provocando substancial estenose espinhal e compressão na raiz do nervo (seta, imagem A).

A paciente escolheu tratamento conservador com fisioterapia e uma injeção epidural de glucocorticoides.



Uma segunda RM, 5 meses após a apresentação, mostrou a resolução da herniação (seta, imagem B). Dados de ensaios clínicos sugerem que os pacientes com hérnia discal lombar têm resultados semelhantes a longo prazo, quer se submetam a cirurgia ou prefiram um tratamento conservador. Para além disso, o risco de agravamento significativo sem cirurgia é mínimo.

Esta paciente relatou que começou a ter dor nas costas depois de vários anos a jogar voleibol, enquanto a dor e a parestesia na perna apenas começaram 6 meses antes da primeira consulta e não foram associadas a nenhum evento precipitante.

Como os seus sintomas foram resolvidos, ela teve alta da clínica, com acompanhamento recomendado, conforme necessário.


Hong J., Ball P.A., Resolution of Lumbar Disk Herniation without Surgery  N Engl J Med 2016; 374:1564

domingo, 20 de novembro de 2016

Terapias baseadas em realidade virtual na recuperação aguda pós-AVC – estudo de caso clínico

O Acidente Vascular Cerebral continua a ser uma das principais causas de incapacidade em todo o mundo. Após a lesão a capacidade de neuroplasticidade é a única adaptação estrutural e funcional do sistema nervoso à mudança.

A terapia baseada em realidade virtual facilita o processo de neuroplasticidade, criando um ambiente estimulante, favorável ao desenvolvimento de mais, e mais eficazes, sinapses. 

Isto acontece através da produção de movimentos e tarefas de alta intensidade, ativos, repetitivos e orientados, que utilizam os princípios da aprendizagem motora.

Apresentação de caso clínico


Mulher, 65 anos, internada na unidade de acidente vascular cerebral, com início súbito de fraqueza, com um dia de duração, dos membros inferior e superior direito. Tinha associada uma marcha instável.

A paciente tinha história de hipertensão, com medicação adequada. Não apresentava défices cognitivos, de fala ou sensoriais significativos.

A força muscular na admissão foi de 4/5 para os movimentos do ombro, cotovelo, punho, anca, joelho e tornozelo direitos e 5/5 para os esquerdos. Foi observada assimetria do membro superior direito.

A tomografia computadorizada no dia da admissão mostrou enfartes lacunares nos núcleos lentiformes bilaterais, cápsulas externas e centro semioval esquerdo.

A paciente foi diagnosticada com acidente vascular cerebral isquémico e começou com clopidogrel.

Tratamento


A paciente foi transferida para o departamento de medicina de reabilitação no 5º dia pós-AVC.

Aqui participou num breve ensaio clínico de terapia ocupacional e fisioterapia combinados com terapia baseada em realidade virtual.

Esta terapia envolveu software especialmente desenvolvido pela Multi-plAtform Game Innovation Centre (MAGIC) que simulava o movimento de trazer alimentos para a boca com o braço afetado, incentivando assim flexão do cotovelo e extensão do membro superior.

Os tratamentos foram realizados diariamente por um dos autores usando um computador portátil. O paciente interagiu com o programa através de unidades de medida inercial, presas ao braço e punho afetados que detetaram deslocamentos do ângulo da articulação do cotovelo e trajetórias do antebraço.

Em nenhum momento durante o ensaio o paciente foi tratado com agentes neurofarmacológicos que facilitassem a recuperação do AVC.

Resultados


Samuel GSChoo MChan WY, Kok SNg YS. The use of virtual reality-based therapy to augment poststroke upper limb recovery. Singapore Med J. 2015 Jul;56(7):e127-30.