terça-feira, 30 de julho de 2013

Bruxismo e disfunções Temporomandibulares

O bruxismo define-se como um anormal cerramento e/ou ranger dos dentes, seja durante a vigília seja durante o sono. Pensa-se que o bruxismo possa causar os sintomas da disfunção temporomandibular (DTM) ou que as duas condições clínicas podem co-existir, sendo que a ligação exata entre as duas ainda não é clara.
Uma série de estudos tem mostrado uma forte relação entre bruxismo e DTM. Um desses estudos observou 212 pacientes com diagnóstico de DTM e o bruxismo foi encontrado em 87,5% dos pacientes com dor miofascial com deslocamento do disco articular e em 68,9% dos pacientes com dor miofascial sem deslocamento do disco. Uma revisão de 46 artigos não mostrou, no entanto, um nexo de causalidade entre os dois. A relação entre ambas é ainda complexa e necessita de mais investigação.

O que provoca o bruxismo?

Pensa-se que o bruxismo durante a vigília está relacionado com fatores psicossociais, como stress  ansiedade e depressão. Hábitos como roer as unhas, mascar lápis e morder na língua ou bochecha também são considerados formas de bruxismo acordado.

Quanto ao bruxismo durante o sono já se pensou que também estava relacionado com esses mesmos fatores psicossociais, no entanto, a investigação atual não suporta isso. Pensa-se agora que os fatores centrais, como micro-despertares durante o ciclo do sono, são a causa mais provável do bruxismo no sono, também conhecido como parafunção ou parassonia.

Durante o ciclo normal do sono temos reativações do cérebro que nos tornam mais conscientes do ambiente à nossa volta, sem estarmos realmente acordados. Essas reativações são conhecidas como micro-despertares e servem para que o nosso corpo possa reajustar a temperatura, a frequência cardíaca e respiratória e para nos acordar, se qualquer ameaça for percebida. Estes despertares geralmente ocorrem uma ou duas vezes por minuto e duram apenas alguns segundos.

Um estudo descobriu, através de electroencefalograma, que as pessoas com bruxismo durante o sono tinham um número significativamente maior de micro-despertares do sono do que os indivíduos saudáveis. Estes despertares extras foram mais comuns durante o sono não-REM e a maioria dos episódios de bruxismo também ocorreu durante o sono não-REM. Este estudo também descobriu que a frequência cardíaca aumentou durante os episódios de bruxismo. 

Acredita-se que o aumento da frequência cardíaca causada por um número excessivo de micro-despertares provoca aumento da atividade neural, que por sua vez estimula os neurónios motores, resultando em contração rítmica dos músculos da mastigação e bruxismo. Curiosamente, verificou-se que cerca de 60% dos indivíduos saudáveis também têm contracção rítmica dos músculos da mastigação, mas sem contacto dos dentes. 

Estima-se que até 20% da população sofre de bruxismo, e destes até 20% têm sintomas de DTM.
A maioria dos episódios de bruxismo ocorre em decúbito dorsal e são mais comuns em pessoas com apneia do sono, distúrbios do sono e sonâmbulos. O bruxismo torna-se menos comum com o avançar da idade.

Sinais e sintomas

Muitos pacientes não se apercebem que apertam ou rangem os dentes, especialmente se tiverem bruxismo do sono. Os seguintes sintomas podem ser indicativos de bruxismo:
  • Queixa do parceiro sobre o barulho de ranger de dentes.
  • Acordar com os dentes cerrados.
  • Acordar com sensibilidade e restrição nos músculos da mastigação.
  • Acordar com sensibilidade nos dentes ou nas gengivas.
  • Entalhes com a marca dos dentes na parte interna das bochechas ou as bordas da língua.
  • A hipertrofia dos músculos masséter.
  • Desgaste dentário excessivo.
  • Estalido ou bloqueio, dor na ATM, dor de cabeça.
  • Ressonar pode ser um indicador de bruxismo durante o sono.

Tratamento


 Fisioterapia - devem ser avaliadas com precisão a região temporomandibular do paciente, a coluna cervical e a postura. É fundamental questionar o paciente especificamente sobre o bruxismo. Os pacientes são mais propensos a relatar casos de bruxismo quando questionados especificamente sobre isso. É importante incorporar isso como parte de uma avaliação DTM.

 Educação do Paciente - Se o bruxismo do paciente ocorre durante o dia, então é necessário educação e aconselhamento para ajudar a mudar hábitos como roer unhas, mascar lápis e cerrar a mandíbula. Ajudar o paciente a identificar e tratar os factores causadores de stresse na sua vida diária pode ser útil. Em alguns casos, os pacientes podem beneficiar da terapia de relaxamento, e exercícios respiração. Encaminhamento para um psicólogo pode ajudar alguns pacientes.

 Higiene do Sono - Educação sobre a boa higiene do sono também pode ser útil. Os pacientes devem ser aconselhados a evitar grandes refeições, álcool e cafeína dentro de três horas antes de dormir e melhorar o seu ambiente de sono, garantindo baixa ou nenhuma luz, o mínimo de ruído, sem animais ou crianças no quarto e tentar ter um horário mantido de deitar e acordar.

 Estudos do sono - Se se suspeita de um distúrbio do sono, como a apneia do sono ou outros distúrbios do sono, o paciente pode se beneficiar de um encaminhamento para uma clínica do sono para estudos mais pormenorizados.

 Dificuldades respiratórias - Se o paciente sofre de quaisquer distúrbios respiratórios, incluindo alergias, é necessário consultar o seu médico de família para investigação e tratamento.


 Placas oclusais - Há evidências para apoiar o uso de placas oclusais durante a noite para pacientes com bruxismo do sono. O objectivo destes splints é manter os dentes levemente separados, mesmo quando o paciente aperta ou range. Isso reduz a compressão da articulação temporomandibular (ATM) e também pode reduzir os danos a longo prazo para os dentes. As investigações demonstram também uma redução nos níveis de atividade do masséter e temporal e redução da dor após o uso de uma placa oclusal à noite.





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